Mundial 2026 enfrenta crise de custos e tradições ameaçadas a dois meses do arranque
Preços de ingressos disparam, tarifas de transporte quadruplicam, festas de adeptos passam a ser pagas e o ‘tailgating’ gera confusão. A FIFA sob pressão para intervir.

A dois meses do pontapé de saída do Mundial 2026, a promessa de uma festa global do futebol nos Estados Unidos, Canadá e México esbarra numa realidade de custos explosivos e regras erráticas que estão a enfurecer os adeptos. A FIFA introduziu discretamente novas categorias de bilhetes com preços ainda mais elevados — até 4.105 dólares para um lugar frontal no jogo de abertura dos anfitriões norte-americanos —, enquanto as tarifas de transporte público para os estádios disparam de forma inédita. Em Boston, a viagem de comboio de ida e volta para o Gillette Stadium subiu de 20 para 80 dólares, e o estacionamento não sai por menos de 220 dólares; em Nova Jérsia, as passagens de comboio entre Penn Station e o MetLife Stadium poderão ultrapassar os 100 dólares. Para os adeptos lusófonos do Brasil, de Portugal ou de países africanos que planeiam atravessar o Atlântico, este agravamento exponencial do custo de assistir aos jogos representa uma barreira financeira adicional pesada.
A indignação nos círculos políticos e entre os fãs é transversal. A governadora de Nova Jérsia, Mikie Sherrill, acusou a FIFA de não contribuir com um só dólar para o transporte, deixando à companhia ferroviária local um rombo de 48 milhões, enquanto o organismo prevê arrecadar 11 mil milhões com o torneio. A FIFA respondeu com surpresa, recordando que os acordos iniciais com as cidades-sede, assinados em 2018, obrigavam a transporte gratuito, mas que em 2023 as exigências foram ajustadas para aliviar a pressão financeira sobre os municípios — o que, na prática, transferiu os custos para os adeptos. Em Toronto, outra frente de tensão: a autarquia pondera cobrar entrada nos festivais de adeptos que inicialmente tinham sido promovidos como espaços gratuitos e inclusivos, alegando derrapagens orçamentais.
A pouca clareza sobre tradições enraizadas nos estádios norte-americanos agrava o mal-estar. Circularam notícias de que a FIFA iria proibir o ‘tailgating’, os piqueniques nos parques de estacionamento antes dos jogos, mas o organismo logo esclareceu que não tem uma política formal de proibição. Contudo, admitiu que poderão ser impostas restrições locais alinhadas com as autoridades de segurança pública, o que já gera receios de proibições caso a caso em recintos como o Arrowhead Stadium ou o Lincoln Financial Field. No México, o imbróglio jurídico é distinto: os proprietários de camarotes no Estádio Banorte, na Cidade do México, travaram uma batalha judicial para fazer valer os seus contratos de acesso ilimitado durante o Mundial, evidenciando que os direitos comerciais pré-existentes colidem com a organização centralizada da FIFA.
Perante este cenário, há esforços transfronteiriços para mitigar os danos. Seattle e Vancouver, separadas por apenas 140 milhas e integradas na região da Cascadia, articulam um planeamento turístico conjunto para as 13 partidas que acolherão, tentando diluir os custos logísticos e maximizar a experiência dos visitantes. A cooperação, porém, não disfarça o contraste chocante com outros eixos do torneio, onde o transporte é uma dor de cabeça e os ingressos estão a ficar nas mãos da FIFA, com quase 30 mil bilhetes ainda disponíveis para vários jogos da fase de grupos, incluindo encontros da própria seleção dos Estados Unidos, um sinal de que a procura pode estar a ser sufocada pelos preços.
À medida que o verão se aproxima, observadores em Brasília e Lisboa notam que o Mundial 2026 corre o risco de se converter no mais elitizado da história, afastando a base popular que sempre sustentou a mística do futebol. A multiplicação de frentes de contestação — da tarifa ferroviária ao ‘tailgating’, dos camarotes mexicanos às festas pagas em Toronto — revela uma organização que, sob a enorme pressão comercial, perdeu a capacidade de equilibrar a rentabilidade com o acesso equitativo. O desfecho deste braço-de-ferro entre cidades, adeptos e a FIFA poderá ditar não só o ambiente nas bancadas, mas também o legado duradouro de uma Copa que já nasceu sob o signo da grandiosidade financeira.
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