EUA capturam navio iraniano e Irão rompe tréguas com ataques de drones
A Marinha dos EUA disparou sobre o cargueiro Touska, que tentou furar o bloqueio ao estreito de Ormuz. Teerão acusa Washington de pirataria armada, recusa negociar e lança represálias, pondo em risco o frágil cessar-fogo.

A tensão no Golfo Pérsico escalou subitamente no domingo, quando o contratorpedeiro norte-americano USS Spruance interceptou e abriu fogo contra o navio mercante iraniano Touska, que ignorou avisos repetidos para não violar o bloqueio naval imposto por Washington ao estreito de Ormuz. Segundo o comando central dos EUA (CENTCOM), as advertências prolongaram-se por seis horas antes de os fuzileiros terem sido autorizados a neutralizar a propulsão, atingindo a sala de máquinas e, mais tarde, abordando a embarcação. O presidente Donald Trump confirmou a operação na rede Truth Social, qualificando-a de resposta necessária à «violação total» do cessar-fogo. Teerão, contudo, classificou o ato como «pirataria armada» e uma violação unilateral da trégua, anunciando de imediato ataques com drones contra vários navios militares dos EUA no mar de Omã, num gesto que analistas internacionais veem como uma retaliação calculada e uma escalada perigosa.
A captura do Touska — que partira da China com uma carga que, segundo peritos, incluía perclorato de sódio, componente-chave de combustível sólido para mísseis — levou ao cancelamento da segunda ronda de negociações prevista para Islamabad. O governo iraniano, pela voz do comando militar Khatam al-Anbiya, deixou claro que não participará em qualquer diálogo enquanto persistir o bloqueio aos seus portos, classificado como «obstáculo intransponível». A administração Trump insistiu que a delegação liderada pelo vice-presidente JD Vance permaneceria no Paquistão, mas sem a contraparte iraniana as perspetivas de renovação do cessar-fogo, que expira na terça-feira, tornaram-se sombrias.
O bloqueio norte-americano à movimentação marítima iraniana e o encerramento de facto do estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial — estão a provocar sobressaltos nos mercados energéticos globais. A cotação do crude disparou nas últimas semanas, um efeito que, na perspetiva de Brasília, pode beneficiar as exportações brasileiras de petróleo, mas que penaliza fortemente economias lusófonas importadoras, como Portugal e os países africanos de língua oficial portuguesa, já pressionados pela inflação nos combustíveis. O temor de que a crise se transforme num conflito duradouro é reforçado pelo histórico recente: a guerra entre EUA/Israel e Irão já matou milhares e já se alastrou a ataques israelitas no Líbano.
Apesar de ambos os lados terem mencionado «progressos» em rondas anteriores, a retórica belicista e o incidente do Touska enterraram qualquer otimismo. Para fontes diplomáticas em Lisboa, o episódio expõe a fragilidade de uma trégua que nunca foi plenamente observada e recorda que o controlo das rotas marítimas estratégicas permanece no centro do xadrez geopolítico do Médio Oriente, com consequências diretas para a segurança energética lusófona e para a estabilidade de toda a região.
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