Blue Origin recupera foguete reutilizado, mas satélite acaba em órbita errada
O terceiro voo do New Glenn marcou a estreia da reutilização de um propulsor, um avanço crucial para a Blue Origin, mas o satélite de comunicações AST SpaceMobile foi colocado numa trajetória inferior à planeada, podendo estar perdido.

O terceiro lançamento do foguete pesado New Glenn, da Blue Origin, culminou num desfecho contraditório. A missão, que partiu de Cabo Canaveral, na Florida, conseguiu pela primeira vez reutilizar um propulsor de um voo anterior, que aterrou com sucesso numa plataforma no Atlântico. Contudo, a fase superior do veículo colocou o satélite de comunicações “BlueBird 7”, da AST SpaceMobile, numa órbita mais baixa do que a prevista, levando a empresa a admitir a perda do equipamento e a abrir uma investigação às causas da anomalia.
A imprensa internacional refletiu leituras divergentes do episódio. Enquanto diários alemães como o Frankfurter Allgemeine Zeitung sublinharam que a missão foi um sucesso parcial — tendo o próprio Elon Musk felicitado o feito —, veículos francófonos e árabes enfatizaram o passo tecnológico. O Le Devoir destacou que a recuperação do propulsor reforça a rivalidade com a SpaceX; o An-Nahar detalhou a importância da reutilização para baixar custos. Já o Sky News Arabia centrou-se na confirmação, pela fabricante do satélite, de que a inserção orbital foi defeituosa. Esta polifonia revela diferentes hierarquias de valor: progresso na reutilização versus fracasso da missão primária.
O New Glenn, com quase 100 metros de altura, foi concebido para competir com o Falcon Heavy e a Starship no mercado de cargas pesadas. A reutilização de andares inferiores é a chave para aumentar a cadência de lançamentos e reduzir custos. O satélite perdido integrava a constelação AST SpaceMobile, que promete banda larga celular direta para telemóveis comuns — uma tecnologia com forte potencial para regiões remotas.
Na perspetiva de Brasília, o contratempo técnico não deverá comprometer as ambições de conectividade na Amazónia, onde a promessa de cobertura via satélite sem necessidade de terminais terrestres pode transformar a inclusão digital. Em Lisboa, analistas do setor espacial acolhem com prudência a falha, mas sublinham que a demonstração de reutilização comprova a maturação dos lançadores recicláveis, fator relevante para as aspirações portuguesas de retomar voos a partir dos Açores. Nos países africanos de língua oficial portuguesa, como Angola e Moçambique, onde a penetração da internet móvel ainda enfrenta obstáculos de infraestrutura, as constelações de órbita baixa são aguardadas com expectativa, ainda que o incidente recorde os riscos técnicos inerentes.
A Blue Origin, sob a liderança de Jeff Bezos, planeia acelerar o ritmo do New Glenn para disputar contratos institucionais e comerciais. A investigação ao erro de inserção orbital poderá atrasar a certificação para missões de segurança nacional norte-americanas, mas o feito da reutilização comprova a viabilidade da arquitetura. O episódio ilustra a dualidade da nova corrida espacial: triunfos de engenharia convivem com perdas materiais, numa fronteira onde o sucesso se mede em quilómetros por segundo.
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