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Berlim recolhe 1,5 mil milhões de euros para o Sudão, mas paz permanece distante

Conferência de doadores na capital alemã assinalou três anos de guerra com promessas recorde, porém a exclusão dos beligerantes e a paralisia diplomática mantêm a crise humanitária como a mais grave do mundo.

Geopolítica10 veículos3 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:57

Na passada quarta-feira, quando o conflito no Sudão completou três anos, uma conferência internacional em Berlim conseguiu mobilizar cerca de 1,5 mil milhões de euros em ajuda humanitária, ultrapassando as metas mais otimistas. Organizada pela Alemanha, França, Reino Unido, Estados Unidos, União Africana e União Europeia, a reunião juntou 55 Estados e recolheu metade do montante junto da UE e dos seus membros. O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, classificou o resultado como um «sinal positivo» num momento de recuo global do financiamento humanitário. Apesar do sucesso financeiro, as negociações para um cessar-fogo não registaram progressos, e analistas europeus descrevem o encontro como um êxito de minimis face à gravidade da crise.

A situação no terreno é descrita pelas Nações Unidas como «apocalíptica»: 34 milhões de pessoas — dois terços da população — necessitam de assistência, mais de 20 milhões enfrentam fome aguda e 12,8 milhões foram forçadas a abandonar as suas casas. O Reino Unido duplicou a sua contribuição para 15 milhões de libras, o Canadá anunciou 120 milhões de dólares canadianos e a Alemanha comprometeu-se com mais de 230 milhões de euros. No entanto, apenas 16% dos fundos necessários para este ano tinham sido cobertos antes da conferência, e a crise no Irão continua a absorver a atenção diplomática dos principais doadores.

Amgad Ahmed, um residente de Omdurman que permaneceu na cidade gémea de Cartum durante todo o conflito, resumiu o cansaço coletivo: «Três anos de guerra desgastaram-nos. Perdemos o emprego, as poupanças e qualquer sentimento de estabilidade.» As duas partes em confronto — o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido — não foram convidadas para a conferência, o que, segundo a imprensa suíça, esvaziou qualquer possibilidade de avanço político. Ambas são acusadas de crimes de guerra, e as suas posições endureceram ao longo dos três anos.

Na perspetiva de observadores em Lisboa, a ausência dos beligerantes evoca os impasses de mediação noutros conflitos africanos lusófonos, como na Guiné-Bissau, onde a exclusão dos atores armados reduziu as negociações a gestos simbólicos. Em Brasília, diplomatas e analistas humanitários sublinham que o Sudão se tornou a «crise esquecida» por excelência, cuja escala de sofrimento contrasta com a fugacidade da atenção internacional e com a escassez de mecanismos coercivos da União Africana.

Mesmo com o recorde de promessas, o alívio financeiro não substitui um acordo político. O secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou ao fim do «pesadelo», mas sem um plano de pressão coordenada sobre os generais sudaneses, a ajuda arrisca-se a ser apenas um paliativo temporário. A quarta primavera de guerra começa com a perspetiva de uma fome catastrófica, enquanto a comunidade internacional debate se é possível financiar a paz sem incluir quem a destrói.

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