Agência atómica pede que Irão restabeleça cooperação sobre sítios nucleares bombardeados
Rafael Grossi solicita “reengajamento” para retomar inspeções um ano após ataques dos EUA e Israel, enquanto potências ocidentais pressionam por resolução no conselho de governadores.

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, apelou esta segunda-feira a que o Irão restabeleça o diálogo e permita a retoma das inspeções nos locais bombardeados pelos Estados Unidos e por Israel em junho de 2025. A exigência surge num momento em que Washington lidera uma iniciativa para aprovar uma resolução na reunião do Conselho de Governadores da AIEA, que poderá agravar as tensões já existentes em torno das conversações sobre um cessar-fogo e do próprio dossiê nuclear. Teerão continua sem informar a agência sobre o estado das instalações atingidas nem sobre o paradeiro dos materiais nucleares ali armazenados, incluindo urânio enriquecido próximo dos níveis utilizáveis em armamento.
A imprensa iraniana próxima do regime reagiu de imediato com dureza às declarações de Grossi. O diário Hamshahri Online chamou “mentiroso” ao diretor-geral, lembrando que num relatório de maio de 2025 a AIEA afirmara não poder garantir que o programa nuclear de Teerão fosse exclusivamente pacífico. A publicação recorda que o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Organização de Energia Atómica do Irão emitiram uma declaração conjunta, no passado dia 10 de Khordad, rejeitando aquilo que descrevem como um relatório “tendencioso”. Esta troca de argumentos ilustra o ambiente de desconfiança que domina a relação entre a agência e o Irão, num contexto em que os ataques aéreos destruíram ou danificaram gravemente as instalações de enriquecimento, mas, segundo várias estimativas, não terão atingido a maior parte do urânio altamente enriquecido.
Os dados técnicos reforçam a complexidade do impasse. A AIEA calcula que, antes dos bombardeamentos, o Irão dispunha de urânio enriquecido a 60% de pureza, um passo técnico muito curto dos 90% necessários para uma arma nuclear. Embora a agência tenha conseguido retomar, na semana passada, uma inspeção de rotina à central de Bushehr, continua impedida de aceder às restantes instalações declaradas que foram alvo dos ataques militares de há um ano. O próprio Grossi reconheceu, segundo o Khabar Online, que a AIEA perdeu, desde fevereiro de 2026, a continuidade do conhecimento sobre o inventário de materiais nucleares iranianos, precisamente devido à suspensão das atividades de verificação no terreno imposta pelo conflito.
Na perspetiva de Brasília, a escalada reaviva as memórias dos esforços diplomáticos do Brasil em 2010, quando a Declaração de Teerão tentou criar uma ponte entre o Irão e o Ocidente. Observadores brasileiros advertem que a nova resolução, ao pressionar Teerão num momento de fragilidade militar, arrisca inviabilizar os canais de negociação e aprofundar a fratura com as capitais ocidentais. Em Lisboa, a orientação dominante alinha-se com a posição da União Europeia, que apoia o reforço do escrutínio da AIEA, mas há quem aponte a ausência de uma estratégia de longo prazo que contemple a estabilização regional do Golfo. Na África lusófona, vozes como as de Angola defendem historicamente o direito ao uso pacífico da energia nuclear e a resolução negociada dos diferendos, o que hoje coloca desafios à coerência da não-alinhamento num quadro de bipolarização crescente.
O desfecho da reunião do Conselho de Governadores servirá de barómetro para a nova geometria de pressões sobre o Irão. Se a resolução for aprovada, o país arrisca ver o seu caso novamente remetido ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, numa altura em que as conversações para um cessar-fogo na região enfrentam obstáculos renovados. Mais do que uma disputa técnica sobre inspeções, o confronto entre Grossi e Teerão expõe a dificuldade de separar o programa nuclear iraniano da crise militar e diplomática que o envolve. A incógnita reside em saber se o apelo ao “reengajamento” encontrará uma contraparte disposta a ceder reciprocamente, ou se a retórica de confronto continuará a ditar o compasso.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
A AIEA manifesta alarme com o persistente bloqueio de comunicação imposto pelo regime iraniano e insta-o a retomar a cooperação para que os inspetores possam aceder aos locais nucleares bombardeados pelos EUA e Israel. As potências ocidentais pressionam por uma resolução porque Teerão não revelou o destino dos materiais nucleares, incluindo urânio enriquecido a níveis próximos do uso bélico, suscitando sérios receios de proliferação.
O diretor-geral da AIEA é acusado de mentir sobre as suas declarações anteriores relativas ao programa nuclear iraniano, alegando falsamente que nunca disse que o Irão estava a construir uma bomba. É retratado como um dos principais impulsionadores da crise, enquanto o Irão sublinha que as inspeções foram parcialmente retomadas em Bushehr, contestando a narrativa de total não-cooperação.
O chefe da AIEA instou o Irão a reatar o diálogo e a permitir inspeções nos locais atingidos há um ano por ataques aéreos dos EUA e de Israel. O apelo surge enquanto as potências ocidentais promovem um projeto de resolução no conselho da agência, num contexto de incerteza quanto ao estado dos materiais nucleares e de impasse nas conversações diplomáticas.
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