Tinubu adverte grupos armados e apela aos jovens que não abandonem a Nigéria
No Dia da Democracia, presidente nigeriano reivindica mais de 13 mil terroristas abatidos, defende reformas económicas e pede aos jovens que fiquem, enquanto protestos e críticas da oposição marcam a efeméride.

O presidente da Nigéria, Bola Ahmed Tinubu, aproveitou a celebração do Dia da Democracia, a 12 de junho, para lançar um aviso contundente aos grupos armados que operam no país: “rendam-se ou enfrentem toda a força” do Estado. Numa emissão televisiva que assinalou 27 anos de governação civil ininterrupta, Tinubu reconheceu que o ambiente festivo foi ensombrado pelos raptos de crianças em Oyo e Borno, mas garantiu que a segurança permanece no centro da agenda governativa. O discurso, o quarto desde que assumiu o poder em 2023, combinou um tom de firmeza com apelos à unidade nacional, pedindo aos jovens que resistam à tentação do “japa” — a emigração massiva de profissionais qualificados — e construam o futuro dentro de casa.
A dimensão securitária dominou a intervenção. Tinubu afirmou que mais de 13 mil “terroristas” foram neutralizados no último ano e que as mortes relacionadas com o terrorismo caíram 81% desde 2015. Revelou ainda que, através da Operação Corredor Seguro, mais de 124 mil combatentes e dependentes se renderam desde 2023. O presidente ligou estes números a um reforço orçamental sem precedentes: o orçamento de 2026 reserva 5,41 biliões de nairas à defesa. Contudo, a realidade no terreno continua a gerar cepticismo. Os raptos em massa de estudantes e professores, que motivaram protestos liderados pelo advogado Femi Falana em Lagos, mostram a fragilidade dos progressos anunciados. O governador de Oyo, Seyi Makinde, revelou que as vítimas permanecem retidas no corredor do Parque Nacional de Oyo Antigo, enquanto o governador de Ondo, Lucky Aiyedatiwa, classificou a insegurança como “ameaça direta” à democracia. A aprovação parlamentar de uma lei que abre caminho à criação de polícias estaduais, elogiada pelo governador de Benue, Hyacinth Alia, surge como resposta à exaustão do modelo centralizado.
As reações ao discurso presidencial expuseram clivagens profundas. A oposição, pela voz do Partido Democrático Popular (PDP) e do Congresso Democrático Africano (ADC), considerou a alocução “longa em promessas e curta em respostas”, acusando o partido no poder de desmantelar o espaço democrático. O antigo vice-presidente Atiku Abubakar apelou aos nigerianos para rejeitarem a “má governação” e a “política de intimidação”. O ex-senador Dino Melaye foi mais longe, pedindo a demissão de Tinubu. Em contraponto, a sociedade civil e a imprensa receberam um apelo ambivalente: “critiquem-me, discordem de mim, mas nunca deixem de acreditar na Nigéria”. A tensão materializou-se em Lagos, onde uma manifestação contra a insegurança e a carestia de vida, convocada por uma coligação de sindicatos e movimentos sociais, se cruzou com uma contramanifestação, exigindo a intervenção policial.
No plano económico, Tinubu defendeu as reformas estruturais iniciadas em 2023, afirmando que as receitas da federação aumentaram e que a transparência fiscal melhorou, permitindo mais recursos para saúde, educação e infraestruturas. Anunciou que as exportações não petrolíferas cresceram 21% em 2025 e que mais de mil pequenas e médias empresas foram certificadas para exportar. No setor elétrico, prometeu que a eletricidade é um “dividendo democrático” que pretende entregar a todos os nigerianos. Estas afirmações contrastam com o mal-estar captado nas ruas de Asaba, no Delta, onde residentes denunciaram um fosso crescente entre ricos e pobres, e com o apelo do alto comissário britânico, Richard Montgomery, para que as eleições de 2027 sejam credíveis e inclusivas, condição essencial para a confiança pública.
Olhando para o futuro, a democracia nigeriana enfrenta testes imediatos: as eleições para governador em Ekiti e Osun, para as quais Tinubu instou a comissão eleitoral e as forças de segurança a garantirem pleitos pacíficos. A efeméride do 12 de junho, que evoca a eleição anulada de 1993 e o sacrifício de MKO Abiola, continua a servir de referência para a qualidade democrática. Na perspetiva de Brasília e de Lisboa, a experiência nigeriana ecoa desafios comuns a outras democracias africanas — a tensão entre centralização e descentralização da segurança, a urgência de diversificar economias dependentes de recursos e a necessidade de reter talento jovem. O legado do 12 de junho, advertem analistas, só se consolida quando a memória do sacrifício se traduz em instituições que protegem efetivamente os cidadãos.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
A imprensa local relata o discurso do Presidente Tinubu no Dia da Democracia, destacando as suas alegações de segurança, o apelo aos jovens para que fiquem e construam, e o reconhecimento das dificuldades económicas. Enquanto algumas vozes elogiam a retórica, outras notam que os dividendos democráticos devem ser tangíveis. A narrativa equilibra o otimismo oficial com um ceticismo cauteloso quanto à implementação.
Os meios de comunicação ocidentais concentram-se na crise de segurança cada vez mais profunda na Nigéria e na alegação não verificada do presidente de que 13.000 militantes foram mortos. Enquadram a emigração em massa de jovens nigerianos como um voto de desconfiança e tratam o discurso como uma mistura de palavras duras e apelos que podem não abordar as causas profundas. O tom é cético, com preocupação com a estabilidade regional e as repercussões migratórias.
A mídia chinesa apresenta o discurso como o plano de um líder responsável para a estabilidade e o desenvolvimento nacional. Enfatiza as conquistas do governo no combate ao terrorismo, os projetos de infraestrutura que ligam produtores aos mercados e o apelo para que os jovens contribuam no país. O enquadramento é pragmático, destacando soluções lideradas pelo Estado e planejamento de longo prazo, sem se aprofundar nas críticas internas.
Os meios de comunicação russos retratam o Presidente Tinubu como um líder decisivo que eliminou mais de 13.000 terroristas e está a restaurar a ordem. Enquadram o seu aviso aos grupos armados e o apelo aos jovens como sinais de um Estado soberano a reafirmar o controlo. A narrativa celebra os sucessos de segurança e posiciona a Nigéria como um parceiro que resiste à desestabilização externa.
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