Protestos na Albânia contra resort de Kushner ganham dimensão geopolítica com acusações ao Irã
Manifestações que começaram contra projeto de luxo em área protegida transformaram-se em movimento antigoverno, enquanto Tirana acusa Teerã de guerra híbrida.

A décima segunda noite consecutiva de protestos na Albânia elevou a crise a um patamar inédito, com cerca de 200 mil pessoas nas ruas de Tirana e uma inesperada dimensão geopolítica. O primeiro-ministro Edi Rama acusou o Irã de conduzir uma “guerra híbrida” baseada em desinformação para amplificar a revolta, transformando o que começou como uma mobilização ambiental contra um resort de luxo ligado a Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump, num confronto diplomático com ecos no Médio Oriente.
O estopim das manifestações foi o início das obras do empreendimento de 1,6 mil milhões de dólares na lagoa de Vjosa-Narta e na ilha de Sazan, zonas protegidas que abrigam flamingos e ecossistemas sensíveis. O governo albanês alterou leis ambientais e acelerou licenças para viabilizar o projeto, o que desencadeou a chamada “revolução dos flamingos”. A imprensa italiana notou que o mal-estar rapidamente se alargou à rejeição do longo mandato de Rama, no poder há 13 anos, e a acusações de corrupção que unem oposição e sociedade civil.
A cólera popular foi reacendida pela decisão de Washington de retirar sanções por corrupção ao líder opositor Sali Berisha, que anunciou o regresso à cena política com um lacónico “Voltei!” nas redes sociais. Fontes israelitas sublinharam que os manifestantes empunham cartazes contra Rama e Berisha, denunciando uma “corrupção transversal” que beneficia ambos os lados do espectro partidário. A reportagem norte-americana recolheu o testemunho de uma manifestante que resumiu o sentimento: “Precisamos de uma grande mudança, o nosso país não nos protege nem serve o seu povo”.
Na perspetiva de Lisboa, a crise albanesa surge num momento sensível para as ambições europeias de Tirana, que aguarda progressos nas negociações de adesão à UE. A instabilidade prolongada e as suspeitas de captura do Estado podem fornecer argumentos aos céticos do alargamento. Em Brasília, analistas recordam as jornadas de 2013, quando milhões de brasileiros saíram às ruas contra a corrupção sistémica, e veem na Albânia um padrão semelhante de esgotamento da paciência cidadã face a elites políticas blindadas.
O desfecho permanece incerto. A dimensão iraniana, destacada pela cobertura persa, acrescenta uma camada de complexidade: Teerã nega envolvimento, mas a tensão bilateral já era elevada desde que a Albânia acolheu dissidentes do regime iraniano. Se a “revolução dos flamingos” se mantiver nas ruas, o governo Rama terá de gerir simultaneamente a pressão interna, o escrutínio ambiental internacional e um conflito híbrido que pode isolar ainda mais o país nos Bálcãs.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
The Israeli press frames the protests as a massive outcry against systemic corruption, targeting both the prime minister and opposition leader for promoting a controversial real estate project linked to Jared Kushner. The demonstrations are portrayed as a historic uprising against a cross-party establishment that prioritizes personal interests over public welfare. The tone is accusatory, emphasizing the scale of 200,000 protesters and the government's betrayal.
Continental European media frame the protests as a 'flamingo revolution', highlighting the environmental threat to protected wetlands from the luxury resort. The demonstrations are depicted as a broader anti-corruption movement against Prime Minister Rama's administration, with a mix of criticism and irony over the flamingo symbolism. There is also mention of an unexpected Iran-Albania conflict emerging from the protests.
The Atlantic press presents the protests as starting over a controversial Kushner-linked resort but expanding into general anti-government rallies. The coverage is factual and measured, noting the 12 consecutive days of protests and the shift from a specific project to broader grievances about corruption. The tone is neutral, focusing on the scale and evolution of the movement.
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