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Pemex admite derrame no Golfo e afasta três dirigentes por omissão

Após dois meses de negação, petrolífera reconheceu fuga em ducto de Cantarell; Presidente Sheinbaum ordenou investigação. Morte de tartaruga e contaminação de rios agravam cenário.

Legislação8 veículos3 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:49

A petrolífera estatal mexicana Pemex finalmente admitiu a dimensão de um grave derrame de hidrocarbonetos no Golfo do México, pondo fim a mais de dois meses de negação sistemática. A fuga, detetada desde o início de fevereiro num ducto da plataforma Abkatún, no prolífico campo de Cantarell, foi inicialmente minimizada como “gotitas” por responsáveis operacionais. Perante o escândalo, a presidente Claudia Sheinbaum ordenou uma investigação exaustiva e o diretor-geral, Víctor Rodríguez, reconheceu que os registos internos foram manipulados para ocultar a emergência. Três altos funcionários foram afastados — o subdiretor de Segurança, Saúde no Trabalho e Proteção Ambiental, o coordenador de Controlo Marinho e o líder de Derrames e Resíduos — enquanto a Procuradoria-Geral da República e o órgão de controlo interno da Pemex investigam responsabilidades criminais.

A confissão desmontou a hipótese oficial defendida no final de março pelo secretário da Marinha, que atribuía as manchas a uma descarga ilegal de um navio não identificado num fundeadouro de Coatzacoalcos e a exsudações naturais de chapopoteras. Um grupo científico convocado pelo Ministério da Ciência analisou mais de 70 imagens de satélite, dados de sobrevoos e modelos de deriva, descartou tanto a hipótese do navio como a das fontes naturais e concluiu que o hidrocarboneto proveio das próprias infraestruturas da Pemex. Apesar do recuo, as autoridades ainda não dispõem de um cálculo fiável do volume derramado.

Os danos ambientais multiplicam-se. Em Coatzacoalcos, a necrópsia de uma tartaruga-verde (Chelonia mydas) revelou níveis “extraordinariamente altos” de intoxicação por hidrocarbonetos em vários órgãos, relacionando-a diretamente com as manchas persistentes no litoral sul de Veracruz. Mais a norte, no rio Cazones, uma mortandade inexplicada de tilápias, lisas, bagres e caranguejos levanta suspeitas de uma contaminação local, embora os habitantes apontem também o derrame maior. Na localidade de Pajapan, populares entregaram à Marinha pedaços de chapopote e fotografias de centenas de sacos com resíduos de petróleo abandonados nas praias, depois de a mesma Marinha ter alegado que os sacos continham apenas sargaço e que a sua remoção não lhe competia.

Na perspetiva lusófona, o caso extravasa fronteiras. Observadores em Brasília notam que o padrão de negação e admissão tardia evoca crises passadas na Petrobras, reacendendo alertas sobre a governação da exploração petrolífera em águas profundas. Em Lisboa, analistas sublinham que acidentes desta natureza no Golfo do México funcionam como advertência para produtores africanos como Angola e Moçambique, onde a expansão do offshore exige uma fiscalização ambiental robusta. Com uma investigação criminal em curso e a extensão dos danos por quantificar, o derrame da Pemex pode tornar-se um marco de responsabilização numa região onde petróleo e fragilidade ecológica coexistem há décadas.

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