Papa Leão XIV condena 'delírio de omnipotência' e exige fim da guerra no Irão
Na vigília pela paz em São Pedro, o pontífice americano fez o mais veemente apelo contra a ofensiva dos EUA e Israel no Irão, apontando a 'idolatria do eu' e exigindo negociações.

Na noite de sábado, da Basílica de São Pedro, o Papa Leão XIV ergueu a sua voz mais contundente contra a guerra que envolve os Estados Unidos e Israel no Irão. Perante uma vigília de oração pela paz, o pontífice denunciou o “delírio de omnipotência” que, segundo afirmou, alimenta o conflito, e apelou diretamente aos líderes políticos para que “parem” e negoceiem a paz. As suas palavras — “Basta da idolatria do eu e do dinheiro! Basta da exibição de força! Basta de guerra!” — ressoaram no mesmo dia em que Washington e Teerão iniciavam conversações presenciais no Paquistão, e enquanto um frágil cessar-fogo se mantinha.
A imprensa norte-americana sublinhou o tom de reprimenda velada ao presidente Donald Trump, que nunca foi mencionado pelo nome, mas cuja justificação religiosa da superioridade militar dos EUA e as declarações ameaçadoras sobre o Estreito de Ormuz foram interpretadas como os alvos implícitos. Analistas nos Estados Unidos notaram que Leão XIV, habitualmente contido, quebrou o seu silêncio diplomático para descrever um ciclo demoníaco que exclui “espadas, drones ou vingança”, numa clara ruptura com a sua anterior prioridade pela unidade eclesial.
Na Europa, a cobertura destacou o dramatismo do gesto. A imprensa espanhola captou o quase grito “¡Deténganse!”, inserindo-o na tradição dos apelos pacifistas de Paulo VI e João Paulo II; a italiana, por sua vez, sublinhou que o papa não esquecera a Ucrânia nem o Líbano, evocando uma “obrigação moral” de proteger os civis e alargando o horizonte da sua mensagem para lá do teatro iraniano. Esta amplitude reforça a imagem de um pontífice que, vindo de uma reserva calculada, emerge agora como voz profética global.
Para o mundo lusófono, a intervenção assume ecos particulares. Em Brasília, a tradicional defesa brasileira da solução negociada de conflitos encontra no discurso papal um aliado moral de peso; observadores em Lisboa recordam a diplomacia vaticana que mediou tensões passadas e notam a consonância com a opinião pública portuguesa, avessa a intervenções unilaterais. Nas igrejas de Angola e Moçambique, onde os bispos têm insistido no diálogo para as crises regionais, as palavras de Roma soam como um reforço da exigência de paz com justiça.
A metamorfose do Papa Leão XIV, de líder discreto a crítico incisivo, revela a gravidade de um conflito que ameaça desestabilizar toda a região. Ao colocar a oração como “dique” contra a agressividade imprevisível do poderio militar, o pontífice lança um repto que transcende a mera condenação: desafia a comunidade internacional a substituir a lógica da força pela da negociação. Resta saber se o seu apelo encontrará eco nas mesas de diálogo ou permanecerá como um solene grito na basílica.
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