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Trégua de Páscoa na Ucrânia fracassa com milhares de violações; troca de prisioneiros avança

Acusações mútuas somam mais de 4 mil incidentes em 24 horas, enquanto mediação dos Emirados Árabes Unidos garante intercâmbio de 350 combatentes e corpos de soldados.

Geopolítica10 veículos4 idiomas3 min de leituraAtualizado 10:35

A trégua pascal ortodoxa, que entrou em vigor às 16h locais de sábado, desfez-se de imediato num coro de sirenes e acusações. Não chegaram a passar 38 minutos até os alertas antiaéreos soarem em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, e, na manhã do Domingo de Páscoa, o Estado-Maior ucraniano já contabilizara 2.299 violações do cessar-fogo — 28 ações de assalto, 479 bombardeamentos, 747 ataques com drones de ataque e 1.045 com drones FPV, sem recurso a mísseis de longo alcance ou bombas aéreas guiadas. O Ministério da Defesa russo, por seu turno, afirmou ter registado 1.971 violações por parte das forças de Kiev, incluindo três tentativas de contra-ataque na região de Dnipropetrovsk.

O contraste entre a simbologia da data e a realidade do terreno não podia ser mais agudo. No mesmo dia em que famílias ucranianas se dirigiam às igrejas, o Presidente Volodymyr Zelensky escrevia na rede social X que “a Páscoa deve ser um tempo de segurança, um tempo de paz”, ao mesmo tempo que avisava que as tropas ucranianas responderiam “simetricamente” a cada ataque russo. A sua esperança de prolongar a pausa para lá do segundo-feira esbarrou, de imediato, no padrão cíclico de acusações cruzadas que tem marcado todas as tentativas de distensão.

Por entre o ruído bélico, uma nota de humanidade conseguiu abrir caminho. A Rússia anunciou a troca de 350 prisioneiros de guerra — 175 de cada lado — com mediação dos Emirados Árabes Unidos, além do intercâmbio de cadáveres: mil corpos de soldados ucranianos por 41 russos. Como gesto paralelo, Kiev devolveu ainda sete civis da região russa de Kursk, ocupada parcialmente durante quase um ano pelas forças ucranianas. O episódio demonstra que, mesmo no pico da desconfiança, os canais diplomáticos conseguem gerar alívios pontuais.

Na perspetiva de Brasília, o fracasso da trégua pascal reforça o cepticismo com que o governo brasileiro encara as propostas de paz limitadas, preferindo insistir numa saída negociada que envolva todas as partes e seja mediada por uma plataforma multilateral. Observadores em Lisboa notam que, para um país da NATO que acolhe grande número de refugiados ucranianos, a erosão de cada cessar-fogo torna mais difícil sustentar o consenso político interno sobre o apoio militar a Kiev. Mais longe, em Luanda, onde a memória da guerra civil ainda pesa, o episódio foi lido como um argumento suplementar para que a comunidade internacional — incluindo os países africanos de língua portuguesa — redobre a aposta em mecanismos de verificação e em garantias de segurança que convertam pausas simbólicas em cessar-fogos duradouros.

Olhando em frente, o saldo da Páscoa de 2025 parece confirmar que o conflito entrou numa fase de desgaste em que tréguas de curta duração se tornaram meras tréguas de conveniência. O Presidente Zelensky ainda espera que a pausa possa ser estendida, mas o acumular de violações em apenas um dia revela o quão distante está uma verdadeira desescalada. A janela aberta pela troca de prisioneiros, ainda que estreita, recorda a todos os atores — das capitais europeias às africanas — que o caminho para uma paz justa passará inevitavelmente por gestos concretos de reciprocidade, e não apenas por palavras.

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