Mulher de Sánchez é formalmente acusada de corrupção em plena viagem oficial à China
Begoña Gómez enfrenta julgamento por quatro crimes enquanto o primeiro-ministro espanhol reunia com Xi Jinping, num caso que abala a frágil coligação de esquerda e ecoa além dos Pirenéus.

A mulher do primeiro-ministro espanhol, Begoña Gómez, foi esta semana formalmente acusada de corrupção pelo juiz Juan Carlos Peinado, que decidiu remeter o caso para um tribunal do júri. A decisão, conhecida durante a visita oficial de Pedro Sánchez à China, enumera quatro crimes: peculato, tráfico de influências, corrupção nos negócios e apropriação indevida de fundos públicos. Gómez ter-se-á servido do ascendente do marido para criar uma cátedra na Universidade Complutense de Madrid e para obter patrocínios empresariais para um software que desenvolveu, com a colaboração de uma assessora colocada a seu lado pelo palácio da Moncloa. O próprio magistrado reconstrói no seu despacho um quadro de “aproveitamento” de um círculo de elite facultado pelo poder do chefe do Governo.
A coincidência temporal com a cimeira sino-espanhola em Pequim gerou “indignação” no executivo socialista. Sánchez, que ouviu de Xi Jinping que “a China e a Espanha estão do lado correto da história” e que rejeitam “o regresso à lei da selva”, limitou-se a repetir em conferência de imprensa: “O que peço à justiça é que faça justiça”. A firmeza do líder asiático no Grande Palácio do Povo contrastou com a fragilidade doméstica espanhola, onde os aliados de Sánchez consideram que o juiz Peinado faz “política” com a investigação e apontam que o próprio auto que põe fim à instrução pede novas diligências, o que, segundo as defesas, pode levar à anulação do processo.
Na perspectiva de Brasília, o caso recorda a instrumentalização política da justiça que marcou a Operação Lava Jato, com críticos a temerem que a investigação sirva de arma de desgaste partidário. Observadores em Lisboa, onde escândalos como o de José Sócrates deixaram marcas, notam que a acusação formal contra um familiar direto de um chefe de governo agrava a instabilidade de uma coligação minoritária já fustigada por outras frentes judiciais envolvendo antigos aliados e parentes do presidente. A própria imprensa espanhola se divide: enquanto o diário El Mundo detalha os alegados esquemas de favorecimento, o El País sublinha os “vaivens” do juiz e o risco de um processo viciado.
O futuro de Gómez e, por arrasto, de Sánchez, será agora decidido por um júri popular. A defesa deverá explorar as fragilidades processuais de uma investigação que se arrastou por dois anos, com meses de segredo de justiça e suspeitas de motivação partidária. Para o governo de Madrid, a batalha judicial é também uma luta contra o “regresso à lei da selva” na arena política doméstica, enquanto do outro lado do mundo Xi Jinping oferecia ao primeiro-ministro socialista um palco de aparente estabilidade.
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