Líbano e Israel acordam iniciar negociações diretas, as primeiras em mais de 30 anos
Encontro histórico em Washington, mediado por Marco Rubio, abriu caminho a conversações bilaterais, mas sem tréguas imediatas enquanto o Hezbollah, ausente da mesa, intensificava ataques no terreno.

Líbano e Israel deram na terça-feira um passo diplomático inédito em três décadas: os seus embaixadores nos Estados Unidos sentaram-se à mesma mesa, em Washington, e concordaram em lançar negociações diretas, num momento e local ainda por definir. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, classificou o encontro de duas horas como uma “oportunidade histórica”, embora tenha sublinhado que não se esperava um avanço imediato. A última ronda de conversações de alto nível entre os dois países, que não mantêm relações diplomáticas, remontava a 1993, e o atual contexto de guerra aberta entre Israel e o Hezbollah — grupo xiita libanês apoiado pelo Irão — tornou a reunião um marco simbólico de peso, ainda que carregado de ceticismo.
As delegações produziram um comunicado conjunto através do Departamento de Estado que descreveu “discussões produtivas” e o compromisso mútuo de prosseguir a via negocial. No entanto, o contraste de narrativas foi imediato. O embaixador israelita, Yechiel Leiter, afirmou que ambos os lados estão “unidos na libertação do Líbano da autoridade ocupante controlada pelo Irão, a chamada Hezbollah”, enquanto a embaixadora libanesa, Nada Hamadeh Moawad, centrou a sua intervenção na exigência de um cessar-fogo, no respeito pela “integridade territorial e soberania plena” e na adoção de medidas urgentes para mitigar a crise humanitária resultante do conflito.
Na perspetiva de Washington, a diplomacia americana procura capitalizar o frágil equilíbrio de forças para desenhar um novo quadro de segurança regional. A imprensa europeia, como a espanhola e a italiana, assinalou o carácter preliminar do encontro — “um prólogo, não um acordo” — e destacou a insistência libanesa na aplicação efetiva do cessar-fogo de novembro de 2024, letra que nunca se materializou completamente. Já a cobertura russa sublinhou a novidade do diálogo direto e o apelo libanês ao fim das hostilidades, enquanto analistas no Médio Oriente recordavam que o Hezbollah, não representado na sala, se opôs frontalmente à iniciativa e respondeu com o lançamento de cerca de 30 rockets contra o norte de Israel.
Os combates prosseguiram a par das conversações. No dia seguinte, ataques aéreos israelitas atingiram veículos numa estrada costeira ao sul de Beirute, fora dos tradicionais redutos do Hezbollah, e o grupo xiita reivindicou a ofensiva com rockets. As imagens de uma carrinha carbonizada e as operações de resgate sublinharam a distância entre a retórica diplomática e a realidade no terreno. Observadores em Lisboa e Brasília notam que, para as capitais lusófonas, o conflito prolongado agrava as pressões sobre os preços da energia e renova o risco de fragmentação no tabuleiro geopolítico, ainda que o seu envolvimento direto seja reduzido.
O caminho até uma trégua sustentável permanece incerto. A exigência israelita de desarmar “todos os grupos terroristas não estatais” colide com a influência armada do Hezbollah, e a ausência do partido-milícia da mesa negocial lança dúvidas sobre a exequibilidade de qualquer entendimento. Contudo, o simples facto de as duas partes terem concordado em avançar para conversações diretas — com hora e local a acordar — reacende uma centelha diplomática que parecia extinta. A comunidade internacional, com os EUA à cabeça, aposta agora em que essa centelha não se apague antes de produzir resultados concretos.
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