Justiça boliviana declara Evo Morales em rebeldia e ordena sua captura
O ex-presidente não compareceu à abertura do julgamento em Tarija; tribunal suspendeu o processo e reiterou mandado de prisão por suposta relação com adolescente de 15 anos.

Num gesto que ecoa a tensão política boliviana, o Tribunal Departamental de Justiça de Tarija declarou esta segunda-feira o ex-presidente Evo Morales em rebeldia e ordenou a sua captura, depois de o líder indígena ter faltado à audiência inaugural do julgamento por tráfico agravado de pessoas. A decisão, anunciada pelo juiz Carlos Oblitas e ratificada pela decana Rosmery Ruiz, suspende o processo oral até que Morales compareça voluntariamente ou seja detido pela força pública. O mandado de apreensão e o arraigo, que o impede de sair do país, já haviam sido emitidos em outubro de 2024, mas ganham agora contornos mais urgentes. Morales, refugiado na região cocalera de Chapare sob a proteção de milhares de camponeses, não enviou sequer os seus advogados, alegando que enfrenta uma “guerra jurídica” e uma perseguição mediática promovida pelo governo de Luis Arce.
A acusação do Ministério Público sustenta que, em 2016, quando ainda ocupava a presidência, Morales manteve uma relação com uma adolescente de 15 anos, da qual nasceu uma criança. Os pais da jovem, conforme a denúncia, terão consentido o vínculo em troca de benefícios políticos e económicos — a mãe, declarada foragida, e o pai, que chegou a ser detido, também respondem pelo crime. O fiscal departamental de Tarija, Luis Gutiérrez, sublinhou que a investigação reuniu mais de 170 provas, incluindo 39 depoimentos testemunhais, e que o processo só será retomado quando os réus forem apresentados à justiça. A defesa do ex-mandatário, por sua vez, insiste na tese de que a ação é parte de um “lawfare” para afastá-lo do cenário político, num momento em que as fações do partido Movimento ao Socialismo (MAS) se digladiam.
A dimensão política do caso é impossível de ignorar. Morales e o presidente Arce, antigos aliados, estão em rota de colisão desde que o ex-líder tentou regressar ao poder, e o processo por tráfico de menores agrava a fratura no seio da esquerda boliviana. Enquanto Morales se diz vítima de uma perseguição judicial e mediática, Arce procura distanciar-se das acusações, mas vê-se enredado numa crise de governabilidade que já resultou em confrontos entre polícias e partidários do ex-presidente. A suspensão do julgamento deixa o caso num limbo jurídico que alimenta tanto a narrativa de impunidade quanto a de instrumentalização do Judiciário.
Na perspetiva de Brasília, o desenlace é acompanhado com cautela: o governo Lula, que historicamente apoiou Morales, precisa equilibrar o respeito pelo devido processo legal com o receio de que o caso sirva de precedente para afastar líderes progressistas por via judicial. Observadores em Lisboa notam que a situação boliviana espelha as dificuldades de consolidação do Estado de Direito na América Latina, onde antigos chefes de Estado frequentemente enfrentam a justiça em contextos de polarização extrema. Já em Angola e Moçambique, a atenção recai sobre os limites da imunidade de antigos governantes — um tema sensível para as elites que ainda detêm influência política. Seja qual for o desfecho, a ausência de Morales no banco dos réus adensa a incerteza sobre o futuro da democracia boliviana e o destino do movimento indígena que ele próprio liderou.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
Progressive Latin American media frame the story as a controversial judicial move, highlighting Evo Morales’s call for a fair trial and his denial of seeking impunity. His absence is portrayed as a protest against a politicized system, while the court proceeds with a contempt ruling and arrest warrant. The tone is critical of the timing and motives behind the case, seen as part of a political vendetta.
Continental European media report the news with a detached, factual tone, focusing on the judicial developments: the contempt ruling and arrest warrant for Evo Morales, accused of child trafficking for a relationship with a 15-year-old. The tense political context with the current president is noted, but the emphasis remains on the legal process and specific charges. No clear stance emerges, just a measured account of events.
Chinese state media report the news in a sober, factual manner, focusing on the contempt ruling and the charge of minor trafficking. Morales’s political past as the first indigenous president is mentioned, but without partisan commentary. The tone is neutral and descriptive, with attention on the legal and procedural aspects of the case.
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