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Israel publica mapa de ocupação no sul do Líbano e mantém demolições apesar do cessar-fogo

A trégua mediada pelos EUA não conteve a criação de uma zona-tampão israelita, com dezenas de aldeias sob controlo militar e uma emboscada que matou um soldado francês.

Geopolítica6 veículos3 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:02

O exército israelita publicou no domingo, pela primeira vez, um mapa oficial da sua nova linha de implantação no interior do Líbano, estendendo-se de 5 a 10 quilómetros para lá da fronteira e colocando dezenas de aldeias, na sua maioria abandonadas, sob controlo militar. A medida surgiu poucos dias depois de entrar em vigor um cessar-fogo negociado pelos Estados Unidos, mas não interrompeu as operações no terreno. Segundo o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, as forças receberam instruções para agir “com toda a força, no solo e no ar”, demolindo qualquer estrutura ou estrada armadilhada que ameaçasse os soldados. Na prática, isso traduziu-se na demolição sistemática de casas em localidades junto à fronteira, num processo que, para analistas libaneses, equivale a “redesenhar a geografia a fogo”.

A fragilidade da trégua ficou patente a 18 de abril, quando uma emboscada no sul do Líbano matou um militar francês e um reservista israelita, ferindo outros nove soldados. A ação foi atribuída ao Hezbollah e reacendeu o debate sobre o uso de “escudos humanos” pelo grupo xiita, uma estratégia que, na leitura de Telavive, justifica a presença prolongada de Israel. Enquanto os tanques israelitas continuam a manobrar, as Forças Armadas Libanesas permanecem sem uma resposta militar significativa, reavivando em Beirute a questão da soberania nacional: sem capacidade de defesa face à incursão israelita, o Estado libanês vê a sua autoridade esvaziada e o território convertido em moeda de troca de negociações regionais.

A publicação do mapa insere-se numa dinâmica que vários observadores locais classificam como “clonagem de Gaza”, com Israel a procurar impor um cinturão de segurança e novas condições políticas. Do lado libanês, multiplicam-se os esforços diplomáticos para prolongar a trégua por mais dez ou vinte dias e evitar um encontro direto entre o presidente Joseph Aoun e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cenário que a administração Trump gostaria de concretizar. Paralelamente, a presença aérea israelita — através de drones que patrulham o sul de forma quase permanente e de sete postos militares ilegais erguidos do lado libanês da Linha Azul — configura uma “ocupação a partir do ar”, descrita como tão opressiva quanto a presença terrestre, e que mantém dezenas de milhares de deslocados sem perspetiva de regresso seguro.

O cessar-fogo assinado a 14 de abril, nas primeiras conversações diretas entre os dois países em décadas, deveria criar espaço para as negociações mais amplas entre Washington e Teerão. Todavia, o que se observa é uma cristalização da presença militar israelita no terreno, consolidada com o beneplácito tácito de mediadores internacionais. A morte do soldado francês arrasta Paris para a espiral de violência e expõe os limites de uma arquitetura de segurança que não consegue impor a retirada. Sem um exército libanês capaz de defender as fronteiras e com o Hezbollah paralisado pela pressão externa, o sul do Líbano transforma-se no laboratório de uma doutrina de dissuasão israelita assente na força e na reorganização unilateral da paisagem humana e física.

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