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FMI prevê dívida global em 100% do PIB já em 2029 e pede ajuste fiscal urgente

Guerra no Irão agrava pressões inflacionistas e risco de contágio financeiro, enquanto endividamento dos EUA dispara para 142% do PIB e emergentes sofrem com margens reduzidas.

Economia4 veículos2 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:58

O Fundo Monetário Internacional lançou um alerta contundente nos Encontros de Primavera, em Washington: a dívida pública global deverá atingir 100% do Produto Interno Bruto mundial já em 2029, antecipando em um ano as projeções anteriores. O conflito no Médio Oriente, com o agravamento da crise no Irão, soma-se às tensões comerciais e reaviva pressões inflacionistas, reduzindo ainda mais a margem de manobra das finanças públicas. Segundo o Fiscal Monitor do FMI, a dívida mundial fechou 2025 em 93,9% do PIB, e o cenário de incerteza geopolítica pode empurrar o endividamento para níveis só vistos no pós-Segunda Guerra.

Na perspetiva de Moscovo, os números relativos aos Estados Unidos impressionam: a dívida norte-americana alcançará 125,8% do PIB no final de 2026 e continuará a escalar até 142,1% em 2031. O Fundo alerta ainda para o risco de uma correção abrupta nos ativos ligados à inteligência artificial, que poderia agravar o desequilíbrio fiscal. Já a Rússia mantém uma posição confortável, com uma dívida de apenas 19,1% em 2026, que subirá gradualmente para 29,1% em 2031 — uma revisão em baixa face às estimativas de outubro. A Ucrânia, devastada pela guerra, verá a sua dívida atingir 122,6% este ano, com um pico de 137,1% em 2027 antes de começar a descer.

A imprensa mexicana destaca o impacto desigual sobre as economias emergentes. O próprio México verá a sua dívida subir de 62,7% do PIB em 2026 para 63,6% em 2030. O Brasil, já com um endividamento elevado, aparece com 106,5% do PIB daqui a quatro anos, atrás de países como China (126,8%), Itália (126,7%), Japão (122,8%) e Estados Unidos. Estes dados evidenciam a vulnerabilidade da América Latina a choques financeiros externos, num momento em que o espaço fiscal se estreita e as taxas de juro permanecem altas.

Em Madrid, o recado do FMI é direto: «Não há margem para complacência». A guerra no Irão veio reacender os focos inflacionistas globais e, com previsões de crescimento modestas, o risco de contágio ao setor financeiro torna-se real. O Fundo insta os governos a acumularem colchões fiscais desde já, advertindo que a combinação de défices elevados, dívidas pesadas e margens reduzidas pode transformar um choque geopolítico numa crise sistémica.

Para o mundo lusófono, a trajetória da dívida brasileira serve de alerta. A margem de ação em Brasília, Lisboa ou Luanda é cada vez mais exígua, enquanto o cenário global pressiona por ajustamentos fiscais dolorosos. A confluência de endividamento recorde, juros elevados e turbulência geopolítica testará a resiliência da arquitetura financeira internacional nos próximos meses, exigindo dos governos uma coordenação que escasseia em tempos de fragmentação política.

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