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China cresce 5% no trimestre, mas exportações mascaram fragilidade interna

Expansão do PIB supera expectativas apesar da guerra no Irão, mas analistas europeus e asiáticos alertam para dependência externa e fraqueza do consumo doméstico.

Economia10 veículos7 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:58

Pequim registou um crescimento do PIB de 5% no primeiro trimestre de 2026, um valor acima das projeções dos analistas, que apontavam para 4,8%. A economia chinesa acelerou face aos 4,5% do trimestre anterior e situou-se no limite superior da meta anual fixada pelo governo entre 4,5% e 5%. O número, divulgado pelo gabinete de estatística oficial, traduz um produto interno bruto de 33,4 biliões de iuanes (cerca de 4,87 biliões de dólares), num período já marcado pela guerra no Irão iniciada em finais de fevereiro, que desorganizou as cadeias energéticas globais.

No entanto, uma leitura mais fina dos dados revela um padrão que preocupa analistas de várias latitudes. O motor do crescimento voltou a ser o setor externo: as exportações dispararam 14,7% face ao ano anterior, impulsionadas por semicondutores, automóveis e construção naval, frequentemente apoiados por subsídios de Pequim. Em contrapartida, a procura interna permanece anémica. As vendas a retalho cresceram apenas 2,4%, com um abrandamento adicional em março, e o mercado imobiliário continua a arrastar-se, acumulando quedas. Observadores europeus, como os meios de língua alemã, denunciam um “curso perigoso” de dependência unilateral das exportações, enquanto a imprensa italiana sublinha que a expansão assenta num modelo insustentável.

A reação internacional oscilou entre o alívio momentâneo e o ceticismo de fundo. A Rússia, que acompanha com interesse a estabilidade do maior parceiro comercial da Ásia, noticiou a aceleração da economia e a manutenção do emprego, mas destacou que o Fundo Monetário Internacional reduziu a projeção de crescimento da China para 4,4% em 2026, citando o impacto prolongado do conflito no Irão. As análises árabes assinalam que Pequim foi a primeira grande economia a divulgar os números e que, apesar da resiliência, as próprias autoridades chinesas advertem para condições externas “voláteis”.

Para o mundo lusófono, a performance chinesa é um barómetro das exportações de matérias-primas. O Brasil, Angola e Moçambique podem beneficiar de uma procura sustentada no curto prazo, mas um modelo de crescimento cada vez mais apoiado na indústria tecnológica e menos no investimento imobiliário e em infraestruturas tende a reduzir a necessidade de minério de ferro, petróleo e outros produtos primários. Analistas em Lisboa alertam que a ausência de uma reforma profunda que reequilibre a economia em favor do consumo interno poderá tornar o crescimento chinês mais volátil e menos absorvente para os parceiros lusófonos. A questão, por isso, já não é se a China aguenta o choque do Irão, mas durante quanto tempo conseguirá manter a expansão sem corrigir os seus desequilíbrios estruturais.

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