FMI alerta que guerra no Irão pode mergulhar economia global em recessão
Conflito entre Estados Unidos e Irão ameaça provocar crise energética inédita, com Reino Unido entre os mais atingidos; FMI corta projeções e alerta para estagflação.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) lançou um alerta contundente: a guerra desencadeada pela administração Trump contra o Irão «obscureceu abruptamente» as perspetivas económicas mundiais, podendo desencadear uma recessão global e uma crise energética de escala inédita. A diretora-geral do Fundo, Kristalina Georgieva, sublinhou que a disrupção no Estreito de Ormuz já está a privar a economia mundial de cerca de 20% do abastecimento de petróleo e gás, e que uma continuação dos combates durante o verão agravará drasticamente o choque de oferta. O cenário central do FMI reduziu o crescimento global para 3,1%, mas se o preço do barril se mantiver em torno dos 100 dólares, a desaceleração poderá ser muito mais severa, com o crescimento a cair até dois pontos percentuais no pior dos cenários.
Entre as economias avançadas, o Reino Unido é a mais fustigada. O FMI reviu em baixa de forma pronunciada as projeções de crescimento britânicas, com o PIB a expandir apenas 0,8% este ano e 1,3% no próximo, ao mesmo tempo que a inflação dispara para perto de 4% — o dobro da meta do Banco de Inglaterra. A chanceler Rachel Reeves reconheceu que «a guerra terá um custo para o Reino Unido». O país sofreu o maior corte nas previsões de crescimento entre os membros do G7, refletindo a sua elevada dependência de importações energéticas e os efeitos colaterais da subida dos preços do petróleo e do gás natural liquefeito.
A amplitude do choque é sublinhada por Mohamed El-Erian, antigo responsável do FMI, que descreve a mensagem do relatório como «sóbria» e alerta para um «vento estagflacionário» que ameaça crescimento, inflação, desigualdade e finanças públicas. O economista lembra que a guerra no Irão agrava praticamente todas as vulnerabilidades herdadas da pandemia e da fragmentação geopolítica — desde a pressão sobre as cadeias de abastecimento alimentar, com o encarecimento dos fertilizantes, até à instabilidade financeira que pode emergir de uma recomposição abrupta dos fluxos de capitais.
Na perspetiva lusófona, os efeitos são díspares mas igualmente preocupantes. O Brasil, grande produtor e exportador de petróleo, poderá beneficiar de uma alta temporária das receitas com o barril valorizado, mas vê ao mesmo tempo agravar-se o risco de contágio recessivo global que afete a procura por matérias-primas. Angola e Moçambique, economias fortemente dependentes das exportações de hidrocarbonetos, enfrentam a volatilidade dos mercados e o risco de uma retração nos investimentos. Já Portugal, importador líquido de energia, está diretamente exposto ao choque inflacionista e à deterioração do crescimento na zona euro, num momento em que a retoma ainda não se consolidou plenamente. Em Lisboa e Brasília, analistas acompanham com apreensão os próximos desenvolvimentos, conscientes de que uma guerra prolongada no Médio Oriente não poupa nenhuma latitude.
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