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Austrália anuncia maior reforço militar em décadas, mas fica aquém das exigências de Trump

Estratégia de defesa prevê mais 53 mil milhões de dólares em dez anos e meta de 3% do PIB, num contexto de erosão das normas internacionais e pressão de Washington por gastos de 3,5%.

Economia7 veículos2 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:58

O ministro da Defesa australiano, Richard Marles, apresentou esta quinta-feira a Estratégia Nacional de Defesa 2026, que prevê um acréscimo de 53 mil milhões de dólares australianos na próxima década, o maior aumento em tempos de paz. O orçamento da defesa passará dos atuais 2,8% para 3% do PIB até 2033, segundo a definição da NATO, mas a nova métrica esconde que, pelo cálculo tradicional, a despesa só subiria para cerca de 2,3% ou 2,4%. A administração Trump, pela voz do secretário da Guerra, Pete Hegseth, exige que aliados gastem 3,5%, o que Canberra admite não cumprir. Marles justificou o reforço com a «erosão das normas internacionais» e o impacto de conflitos como a guerra no Irão, que classificou como o cenário estratégico «mais complexo e ameaçador desde a Segunda Guerra Mundial».

O plano combina investimento direto com novos programas de financiamento através de capital privado e uma redução da dependência de mão de obra contratada, reforçando em vez disso os quadros da função pública da Defesa. Inclui também uma poupança de 10 mil milhões de dólares na próxima década, com cortes imediatos como a frota de aviões C-27 Spartan. Marles defendeu a aliança com os Estados Unidos como «indispensável», mas sublinhou que a Austrália, enquanto potência média, precisa de construir maior autossuficiência, sem abandonar a ordem internacional baseada em regras — que, garantiu, «não está extinta».

Na perspetiva de Brasília, a estratégia australiana ecoa as ambições de outros países do Sul Global que procuram equilibrar alianças tradicionais com uma capacidade própria reforçada, ainda que o orçamento de defesa brasileiro permaneça muito aquém destas proporções. Em Lisboa, analistas notam que o recurso a definições contabilísticas alternativas para atingir metas de despesa militar não é exclusivo de Canberra — vários aliados europeus da NATO enfrentam debates semelhantes sobre a credibilidade dos números. Para as nações lusófonas africanas, como Moçambique e Angola, o diagnóstico de uma ordem internacional em decomposição reflete preocupações diretas com a segurança marítima e os conflitos regionais que testam a cooperação multilateral.

Apesar de ser apresentado como o maior passo estratégico desde a Guerra Fria, o documento enfrenta ceticismo dentro e fora do país. A opção de usar a norma da NATO para a projeção de 3% é vista por comentadores como uma forma de responder à pressão externa sem os custos políticos de um aumento real expressivo, mas o caminho está traçado: o governo de Anthony Albanese, que não fez da defesa uma prioridade inicial, vê-se forçado por um ambiente global imprevisível a acelerar o rearmamento. Resta saber se a velocidade será suficiente para recuperar o atraso.

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The Sydney Morning Herald
Australian Broadcasting Corporation (ABC)
The Canberra Times
The Guardian
The Independent
Kommersant
Australian Financial Review (AFR)