Ferrari elétrico 'Luce' divide tradição e futuro e derruba ações da marca
Apresentado ao Papa Leão XIV, o primeiro Ferrari 100% elétrico provocou fúria entre puristas, ironia de antigos líderes e uma queda superior a 8% na Bolsa de Milão.

Num gesto carregado de simbolismo, os executivos da Ferrari apresentaram na terça-feira o 'Luce' ao Papa Leão XIV, em Castel Gandolfo. O modelo de quatro portas e cinco lugares, assinado pelo estúdio do antigo designer da Apple Jony Ive, não apenas rompe com a gramática visual de Maranello como inaugura uma era silenciosa para o cavallino rampante. A bênção papal, porém, contrastou com a receção estrondosamente negativa de uma legião de aficionados e de figuras de proa da própria história da marca.
Na imprensa italiana, a reação foi visceral. Ex-presidentes como Luca Cordero di Montezemolo classificaram o carro como "a destruição de uma lenda" e pediram a remoção do símbolo da Ferrari da carroçaria, enquanto o político Carlo Calenda apelidou o modelo de "insulto estético e tecnológico". Já o líder da Liga, Matteo Salvini, encontrou na polémica um eco para as suas críticas à transição energética. Em Roma e Milão, muitos observadores viram no desconforto dos puristas mais do que uma simples resistência ao design – identificaram uma fenda identitária num país que vive a eletrificação automóvel, da farinha de insetos às berlinas desportivas, com a mesma desconfiança com que encarou as pale eólicas.
Para os mercados de língua alemã, o ceticismo foi financeiro. As ações da Ferrari cederam mais de 8% na Bolsa de Milão logo após a revelação, com analistas a questionarem se um superdesportivo elétrico consegue preservar o mito que sempre residiu no rugido dos motores V8 e V12. A imprensa helvética e germânica sublinhou que o lançamento ocorre num momento em que o segmento de luxo elétrico está sob pressão, com a Porsche a rever estratégias e as marcas chinesas a avançarem com agressividade. A Ferrari, contudo, garante que a estratégia multienergia não visa substituir os motores térmicos, mas alargar as possibilidades de desempenho e atrair uma clientela inédita.
Do lado lusófono, a cobertura brasileira e portuguesa ecoou as críticas estéticas, comparando o 'Luce' a modelos de baixo custo da Nissan ou Toyota. O noticiário económico realçou o contraste entre o preço de 640 mil dólares e a receção fria dos investidores. Ao mesmo tempo, a visita do carro ao Papa foi lida como uma tentativa de sacralizar um produto que precisa de legitimação emocional para conquistar uma base de clientes menos apegada ao ronco dos motores e mais sensível à exclusividade tecnológica e ao design de autor.
O episódio expõe uma encruzilhada que vai além de Maranello. Se, como ironizou Briatore, "ao menos este os chineses não copiarão", a provocação mascara uma realidade mais complexa: a Ferrari arrisca-se a perder a sua tribo fundadora sem a certeza de que a nova geração de compradores valorize um ícone que se reinventa. O 'Luce' não é apenas um carro – é um teste decisivo sobre se o luxo automóvel pode sobreviver à descarbonização sem se descaracterizar, e a resposta dos mercados, tanto financeiros como afetivos, permanece em aberto.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
In Italy, the electric Ferrari is splitting opinion: some see it as an insult to the brand's heritage, while others celebrate it as an inevitable step forward. The papal audience turns the launch into an almost theological matter, with former bosses calling for the removal of the Prancing Horse emblem itself.
Across the Alps, the Ferrari drama is met with mockery: the Luce is portrayed as a soulless gadget, an iPhone on wheels destroying a legend. The Pope's involvement becomes just another sign that this electric car needs divine intervention to be accepted.
In Latin American markets, Ferrari's first electric car is met with skepticism: the stock slump and fierce criticism from former bosses fuel the perception of a misstep. The presentation to the Pope is read as a marketing stunt or an act of faith in an uncertain future.
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