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Estrangulamento de Ormuz encarece moda rápida e preservativos em cadeia global

O fecho do Estreito de Ormuz por um conflito no Médio Oriente está a perturbar o fornecimento de derivados de petróleo, com impacto imediato nos preços do poliéster para vestuário e do látex sintético para preservativos, atingindo mercados na Ásia e na Rússia.

Economia7 veículos4 idiomas3 min de leituraAtualizado 07:39

O encerramento do Estreito de Ormuz, via por onde circula cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo, desencadeou uma vaga de choques de oferta que está a transformar as prateleiras de bens de consumo. A disrupção atinge duramente a fileira têxtil e a indústria da borracha, com as primeiras ondas de aumentos a fazerem-se sentir na Índia, na Malásia e na Rússia. O poliéster, fibra derivada do petróleo que representa 59% da produção global de fibras e está presente em peças de marcas como Zara e H&M, viu os custos das matérias-primas dispararem depois de fornecedores chineses terem revisto os preços em alta. Na perspetiva de produtores indianos de fio de poliéster, os derivados de petróleo necessários ao fabrico estão a chegar com um agravamento de quase 30%, antecipando um encarecimento iminente do vestuário de moda rápida e até de ténis.

Paralelamente, o maior fabricante mundial de preservativos, o grupo malaio Karex — que fornece marcas como Trojan e Durex —, anunciou ter aplicado aumentos até 30%, à medida que o custo do principal material para luvas e contracetivos de borracha sintética duplicou. A dependência da indústria da borracha em relação ao petróleo tornou-a particularmente vulnerável ao bloqueio do estreito, imposto pelo Irão. Em declarações recolhidas na Malásia, o diretor-geral da Karex, Go Mia Kiat, sublinhou que não há alternativa senão transferir os custos logísticos e produtivos acrescidos para o consumidor final nos próximos meses.

Na Rússia, o pulso dos preços já é visível. Dados compilados por analistas em Moscovo mostram que, no primeiro trimestre, o preço médio de uma embalagem de preservativos nas farmácias russas subiu 13,2% em termos homólogos, atingindo 477 rublos, enquanto na grande distribuição o valor ultrapassou os 530 rublos em abril, bem acima dos 450 registados no início do mês. A marca Durex lidera o mercado com uma quota de 39,8% em valor, seguida de perto pela Contex. A subida destaca-se por superar largamente a inflação geral, revelando um padrão de choque setorial que os observadores locais associam diretamente à guerra no Médio Oriente. Apesar do salto nos preços, as vendas reais nas farmácias estagnaram em 2025, sugerindo que os consumidores russos estão a reduzir compras ou a migrar para canais mais baratos.

Olhando para o mundo lusófono, os ecos desta crise ainda não se refletem nas estatísticas, mas a elevada dependência de importações de vestuário e de produtos de borracha expõe economias como a brasileira, a portuguesa e as africanas a um repique inflacionista. Se a pressão sobre o poliéster se mantiver, as coleções de outono-inverno das cadeias europeias com presença no Brasil e em Portugal poderão chegar com reajustes de dois dígitos. A prazo, os governos poderão ver-se confrontados com uma nova vaga de inflação importada sem que as cadeias de transporte alternativas, como o contorno pelo Cabo da Boa Esperança, consigam evitar a propagação dos custos da instabilidade no Golfo Pérsico.

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