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El Niño de 2026 ganha força e dissemina extremos climáticos por três continentes

Enquanto o Pacífico equatorial aquece há cinco meses e cientistas temem um ‘super El Niño’, ondas de calor anómalas atingem a América do Norte e a Europa, e a Índia regista chuvas fora de época.

Energia e Clima5 veículos3 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:52

A confirmação, a 9 de abril, de que as águas subsuperficiais do Pacífico equatorial aquecem pelo quinto mês consecutivo acendeu o alerta nos centros de meteorologia de todo o mundo. Os cientistas monitorizam a possibilidade de se formar um El Niño “muito forte” em 2026, capaz de bater recordes de intensidade que remontam a 150 anos. Observadores em Londres notam que o Met Office britânico já fala em “super El Niño”, um fenómeno que poderá amplificar o calor global ao longo do próximo ano. Na perspetiva de Brasília, o aquecimento anómalo do Pacífico é acompanhado com particular atenção, dado o histórico de secas no Nordeste e enchentes no Sul do Brasil associadas a episódios intensos do fenómeno.

Ao largo da Califórnia, a materialização desse desequilíbrio já é visível. O oceano regista uma onda de calor marinha extrema, com temperaturas a baterem recordes diários e um padrão persistente que, segundo os especialistas locais, ecoa a “bolha” de 2014-2016 — evento que desencadeou marés vermelhas, colapsos nas pescas e mortalidades massivas de aves. Esta massa de água quente, a par de uma crista de alta pressão atmosférica, está a projetar um verão húmido, tempestuoso e com menos nevoeiro na costa oeste, aumentando o risco de furacões e incêndios florestais. Nas montanhas da Sierra Nevada, a escassez de neve ilustra o contraste: apesar de uma tempestade tardia ter depositado mais de um metro de neve fresca em abril, a cobertura deste ano é a segunda pior dos últimos 50 anos, com o pico de fevereiro a não ultrapassar 73 % da média.

Do outro lado do continente, a Costa Leste dos Estados Unidos enfrenta uma vaga de calor excecionalmente prolongada para abril. Washington, D.C., atingiu 33,9 °C e as temperaturas na faixa dos 90 graus Fahrenheit mantiveram-se até ao fim de semana, pressionando a saúde pública porque a população ainda não está aclimatada. Filadélfia e Nova Iorque partilharam do sufoco, enquanto as brisas de Jersey Shore ofereciam o único alívio. No Reino Unido, o termómetro também subiu de forma precoce: os 26,6 °C registados em Kew Gardens no início do mês fizeram daquele o dia mais quente do ano e um dos inícios de abril mais cálidos de que há memória.

Na Índia, a dinâmica é distinta, mas igualmente fora do padrão. Duas perturbações ocidentais sucessivas, previstas para cruzar o norte do país entre 16 e 19 de abril, estão a provocar chuva, granizo e uma descida das temperaturas precisamente quando o calor do verão se aproxima. Este padrão, que se seguiu a várias outras perturbações nas últimas semanas, trouxe alívio aos agricultores, mas os analistas em Nova Deli recordam que um El Niño robusto tende a enfraquecer a monção de verão, pondo em risco colheitas e o abastecimento hídrico do subcontinente.

Para além das latitudes diretamente afetadas, o fortalecimento do El Niño em 2026 coloca o planeta perante um cenário de calor acrescido. Meteorologistas em Lisboa, Maputo e outras capitais lusófonas acompanham os modelos que indiciam um episódio capaz de ampliar extremos — chuvas torrenciais na África Austral e seca na Amazónia — e de impulsionar a temperatura média global para valores nunca antes registados na era industrial.

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