Democratas pedem impeachment de Hegseth por guerra no Irão e abuso de poder
Deputados democratas apresentaram seis artigos de impeachment contra o secretário da Defesa, Pete Hegseth, acusando-o de guerra não autorizada, crimes de guerra e obstrução ao Congresso. A iniciativa, sem viabilidade de aprovação, visa consolidá-lo como novo alvo político.

A bancada democrata da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos formalizou na quarta‑feira uma resolução de impeachment contra o secretário da Defesa, Pete Hegseth, acusando‑o de abuso de poder, condução de uma guerra não autorizada contra o Irão e violações do direito internacional humanitário. Liderada pela deputada Yassamin Ansari, primeira norte‑americana de origem iraniana eleita para o Congresso, a peça enumera seis artigos, entre os quais se destacam o bombardeamento de civis e de uma escola feminina em Minab, no Irão, e a divulgação negligente de informações classificadas. Apoiada por uma dúzia de co‑patrocinadores, a iniciativa não tem qualquer hipótese de prosperar na Câmara de maioria republicana, mas representa um endurecimento da estratégia democrata contra o governo Trump.
Na perspetiva de Washington, a escolha de Hegseth como alvo não é casual. A sua gestão do Pentágono acumula escândalos antigos e o envolvimento direto no conflito com Teerão, que a oposição considera uma escalada bélica sem autorização do Congresso. Aliás, os democratas já haviam pressionado pelo impeachment da antiga secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, e da ex‑procuradora‑geral, Pam Bondi, ambas afastadas por Trump nos últimos meses. Agora, a figura de Hegseth surge como o novo «espantalho» da oposição, nas palavras da imprensa europeia, que sublinha o seu perfil polarizador e a vulnerabilidade política. O Pentágono, pela voz do seu porta‑voz Kingsley Wilson, reagiu classificando a iniciativa como «mais uma tentativa democrata de fazer manchetes», enquanto as forças armadas cumprem as ordens do presidente.
A cobertura noticiosa revela uma divergência curiosa: os títulos europeus, como os do italiano La Repubblica ou do espanhol ANSA, noticiaram inicialmente cinco artigos de impeachment, enquanto a generalidade da imprensa norte‑americana — Time, Fox News, CBS News, Newsweek — confirma seis. A discrepância parece decorrer de diferentes momentos de acesso ao texto da resolução, mas reflete também a velocidade com que a narrativa política se constrói em ambos os lados do Atlântico.
Para observadores em Lisboa, o incidente acentua a inquietação com a escalada no Médio Oriente, cujo impacto nos preços da energia afeta diretamente economias lusófonas como a de Angola, grande produtora de petróleo. Em Brasília, analistas notam que o uso do impeachment como instrumento de desgaste político, mesmo sem perspetiva de sucesso, evoca os processos que marcaram a história recente brasileira — um sinal de como a polarização institucional se globaliza. Já na África lusófona, a prioridade é a estabilidade das cadeias de abastecimento energético, mas a simples ameaça de um conflito prolongado com Teerão acende alertas em governos que dependem da previsibilidade dos mercados.
O mais provável é que a resolução seja rapidamente arquivada. Contudo, a manobra democrata não é inócua: ao elencar crimes de guerra e abuso de poder num documento formal, o partido fixa uma narrativa que poderá ser explorada nas eleições intercalares e mantém Hegseth sob escrutínio público contínuo. Simultaneamente, o gesto consolida uma frente unida entre os democratas quanto à política externa e à transparência militar, sinalizando que a administração Trump continuará a ser desafiada por todos os instrumentos legislativos disponíveis — por mais simbólicos que sejam.
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