Carney conquista maioria parlamentar e consolida poder até 2029
Com vitórias em duas eleições parciais em Toronto, o primeiro-ministro liberal Mark Carney alcançou 173 assentos, ultrapassando a barreira da maioria e podendo governar sem precisar de acordos com a oposição.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, assegurou na noite de segunda-feira uma maioria governativa na Câmara dos Comuns, depois de o seu Partido Liberal vencer duas eleições parciais em círculos eleitorais de Toronto, tradicionais bastiões liberais. As projeções dos principais meios de comunicação canadianos — CBC, CTV e Globe and Mail — confirmaram as vitórias de Danielle Martin em University‑Rosedale e de Doly Begum em Scarborough Southwest, elevando o número de deputados liberais para pelo menos 173, um acima dos 172 necessários para controlar a câmara de 343 lugares. Uma terceira parcial, em Terrebonne, no Quebeque, ainda aguarda resultados, podendo ampliar a margem.
A conquista da maioria absoluta surge um ano depois de Carney ter vencido as legislativas sem alcançar esse patamar, obrigando-o a governar em minoria. Desde então, cinco deputados da oposição atravessaram o piso para se juntarem aos liberais — a mais recente, a conservadora Marilyn Gladu, na semana passada. Um antigo ministro conservador, Peter MacKay, classificou estas deserções como um “golpe violento” e “moralmente repulsivo”, mas reconheceu que elas fragilizam ainda mais o líder conservador Pierre Poilievre. A combinação das travessias com os resultados das parciais dissolveu a incerteza que pairava sobre Ottawa e devolveu ao partido no poder a capacidade de aprovar legislação sem depender de acordos com o Novo Partido Democrático ou com o Bloco Quebequense.
A imprensa norte-americana e europeia de língua francesa interpreta o desfecho como o virar de uma página. Diários como Le Devoir e Radio‑Canadá sublinham a indiferença com que a vitória foi recebida no comício liberal em Terrebonne, sinal de que o resultado era dado como certo. Já o Le Temps, da Suíça, recorda que Carney, antigo banqueiro central, surpreendeu ao vencer em 2025 e que agora obtém “carta branca” para reformar uma economia ameaçada pelas tarifas dos Estados Unidos. Para o leitor lusófono, o cenário evoca a diferença entre sistemas parlamentares: enquanto no Brasil as coligações são frequentemente necessárias para governar, e em Portugal as maiorias absolutas tendem a gerar estabilidade, em África lusófona as maiorias parlamentares quase nunca traduzem a mesma dinâmica de escrutínio opositor. O caso canadiano mostra como as regras do primeiro a passar o posto podem concentrar poder de forma abrupta.
Com a maioria garantida, Carney deixa de estar refém de negociações legislativas e pode avançar com a sua agenda sem entraves até ao próximo escrutínio federal, previsto para outubro de 2029. Analistas canadianos apontam que o governo deverá agora detalhar planos para enfrentar a pressão comercial de Washington e para reforçar a despesa militar, numa altura em que aliados da NATO questionam a credibilidade dos números de Ottawa. A estabilidade parlamentar, contudo, não blinda o executivo dos riscos externos: a economia canadiana continua muito exposta às decisões da administração norte-americana e as divisões internas sobre o custo de vida e a transição energética permanecem latentes. A maioria recém-adquirida é, assim, um instrumento poderoso, mas não uma garantia de tranquilidade política.
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