Trump ataca Papa Leão XIV, apaga imagem que o retratava como Jesus e provoca crise na base conservadora
Em plena escalada contra o Irã, presidente dos EUA insulta o pontífice e publica imagem gerada por IA que suscita acusações de blasfêmia; Vance defende-o e pede ao Vaticano que se cinja a questões morais.

A escalada entre Donald Trump e o Papa Leão XIV atingiu um ponto de saturação no domingo, quando, enquanto forças norte-americanas bloqueavam o estreito de Ormuz, o presidente publicou um violento ataque na rede Truth Social. Acusou o primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos de ser «fraco na questão do crime e catastrófico em política externa», de desejar que o Irã possua armas nucleares e de se ter calado sobre o «medo» da Igreja durante a pandemia, quando padres eram detidos por celebrar missas. Horas depois, Trump divulgou uma imagem gerada por inteligência artificial que o mostrava como figura cristológica, curando um doente num leito hospitalar. Após uma vaga de indignação, apagou a publicação e afirmou julgar que a ilustração o representava «como médico, ligado à Cruz Vermelha».
A Casa Branca recusou recuar. O vice-presidente J. D. Vance, católico convertido, pediu ao Vaticano que «se atenha às questões morais» e deixe ao presidente dos EUA a definição da política pública, desvalorizando a imagem como uma piada. Contudo, a provocação foi além do esperado: aliados do movimento Make America Great Again e figuras conservadoras manifestaram descontentamento, classificando a manipulação visual como blasfêmia. Analistas em Washington sublinham que a crise expõe uma fratura na coligação de Trump, que sempre cultivou o voto católico e religioso.
Na imprensa internacional, o episódio foi lido através de lentes regionais distintas. Os diários franceses deram relevo ao contexto do bloqueio de Ormuz e à acusação de que Leão XIV teria ignorado a repressão pandémica contra o clero. Em Itália, destacou-se o ineditismo de um presidente americano atacar a legitimidade do primeiro papa nascido nos EUA e a forma como Vance reacendeu a velha tensão entre poder temporal e Santa Sé. O jornal South China Morning Post, de Hong Kong, centrou-se na controvérsia da imagem e na desculpa do médico, refletindo o fascínio global pela dimensão teatral do choque. Para as comunidades lusófonas, o conflito carrega um significado particular: o Brasil, maior nação católica do planeta, observa com apreensão, temendo que o atrito entre Washington e o Vaticano fragilize a diplomacia eclesiástica em Angola, Moçambique e Timor-Leste.
O momento não poderia ser mais delicado. Enquanto a administração pressiona militarmente o Irã, Trump alienou não só os fiéis, mas também os que viam nele um defensor da liberdade religiosa. Observadores em Lisboa avaliam que a crise pode encorajar o Vaticano a assumir um papel mais assertivo na paz global, ao passo que em Brasília o governo, diante de uma opinião pública majoritariamente católica, pode sentir-se compelido a moderar o alinhamento automático com a Casa Branca. A verdadeira incógnita é se o presidente conseguirá recompor a relação antes que o cisma se torne irreversível na sua base de apoio.
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