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Revisão abala confiança em novos fármacos para Alzheimer; dieta surge como alternativa

Análise de 17 ensaios clínicos conclui que lecanemabe e donanemabe têm benefício clínico insignificante, enquanto estudo defende dietas mediterrânica e MIND na redução do risco.

Saúde e Ciência7 veículos4 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:52

A revisão sistemática da Cochrane, que agregou dados de 17 ensaios clínicos com mais de 20 mil pacientes, concluiu que os novos anticorpos antiamiloide — lecanemabe (Leqembi) e donanemabe (Kisunla) — produzem, na melhor das hipóteses, um efeito clínico mínimo na progressão do Alzheimer inicial, ao mesmo tempo que elevam os riscos de edema e hemorragia cerebral. A análise, publicada por uma rede de investigadores independentes, contesta a narrativa de “revolução terapêutica” que acompanhou a aprovação destes fármacos na Europa e no Reino Unido.

A controvérsia ganhou contornos acesos nos meios científicos. Na imprensa britânica, associações de doentes criticaram abertamente a revisão, acusando os autores de misturarem ensaios falhados e bem-sucedidos, o que distorceria a avaliação. O neurologista Edo Richard, da Universidade Radboud, nos Países Baixos, sublinhou que os benefícios “eram ausentes ou consistentemente pequenos”. Em Espanha e na Suíça, comentadores recordaram que a Agência Europeia do Medicamento dera luz verde condicionada a estes biológicos justamente com base em evidências de abrandamento da demência em fases precoces. Na perspetiva de Lisboa e de São Paulo, o debate aterrou num momento em que os sistemas de saúde pública ponderam o elevado custo destas terapêuticas e a necessidade de biomarcadores específicos para a prescrição.

Enquanto os fármacos dividem especialistas, um estudo russo publicado na Frontiers in Nutrition reacendeu a esperança na prevenção pelas escolhas alimentares. A investigação observacional associou os padrões alimentares mediterrânico e MIND — ricos em vegetais, frutos vermelhos, frutos secos, cereais integrais e azeite — a uma redução de 10 a 20% no risco de demência. Contudo, os ensaios clínicos randomizados mostraram ganhos cognitivos modestos, comparáveis aos efeitos marginais das medicações antiamiloide. Ainda assim, especialistas em saúde pública do Rio de Janeiro e de Maputo veem aqui um caminho pragmático: dietas acessíveis e culturalmente adaptáveis podem oferecer proteção em países com recursos limitados, onde a prevalência da demência cresce rapidamente.

O novo capítulo da investigação do Alzheimer parece apontar para uma abordagem multifacetada. Se os fármacos antiamiloide representam um passo biotecnológico, o seu modesto benefício clínico e o perfil de segurança preocupante obrigam a realçar intervenções não farmacológicas. Em África lusófona, onde as estruturas de diagnóstico precoce são escassas, a promoção de hábitos alimentares saudáveis e do exercício físico pode ser uma estratégia de saúde coletiva mais exequível. Para o Brasil e Portugal, o momento exige cautela regulatória e investimento em investigação clínica própria, que avalie tanto a custo-efetividade dos novos fármacos como o impacto real de estilos de vida inspirados nas dietas MIND. A polémica metodológica que envolve a revisão Cochrane deverá, assim, prolongar-se até que estudos de longo prazo confirmem quem deve receber estas drogas e com que ganho efetivo.

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