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Reed Hastings abandona a Netflix após quase 30 anos e ações afundam

Cofundador deixa a presidência do conselho em junho para focar a filantropia; lucro trimestral dispara com indemnização da Warner, mas previsões fracas desiludem investidores e título cai mais de 9%.

Finanças15 veículos6 idiomas3 min de leituraAtualizado 08:44

A saída de Reed Hastings da presidência do conselho de administração da Netflix, anunciada na quinta-feira, marca o fim de uma era para a gigante do streaming. O cofundador, que em 1997 ajudou a transformar um serviço de aluguer de DVD por correio num império global de entretenimento, não se recandidatará ao cargo em junho, após quase 29 anos. "A Netflix mudou a minha vida de muitas maneiras", escreveu Hastings aos acionistas, evocando o momento de 2016 em que a plataforma se tornou acessível em quase todo o mundo. A notícia, divulgada juntamente com os resultados do primeiro trimestre de 2026, fez a ação desabar mais de 9% no mercado pós-fecho em Wall Street, num sinal claro de nervosismo dos investidores.

Os números financeiros mostraram um lucro líquido de 5,28 mil milhões de dólares, quase o dobro do período homólogo, impulsionado por uma indemnização de rutura das negociações falhadas com a Warner Bros. Discovery. As receitas ascenderam a 12,25 mil milhões, ligeiramente acima das estimativas. Contudo, as projeções para o segundo trimestre, com um lucro por ação abaixo do esperado e o crescimento mais lento em um ano, desencadearam a correção bolsista. Na perspetiva de Moscovo, a volatilidade acionista reflete também o receio da dívida que a Netflix teria de assumir se a fusão tivesse avançado, enquanto analistas europeus sublinham que a empresa procura novos motores de crescimento depois de perder a corrida pelos estúdios da Warner.

Hastings deixa como legado um modelo de gestão polémico mas eficaz. No seu livro de liderança, comparava a empresa a uma equipa desportiva, onde o desempenho meramente adequado resultava num "pacote generoso de indemnização". Esta cultura de exigência radical, aliada ao foco obsessivo na satisfação do utilizador, permitiu à Netflix migrar do DVD para o streaming, produzir conteúdos originais e ultrapassar as televisões generalistas, inclusive em mercados lusófonos como o Brasil e Portugal, onde a plataforma conquistou uma audiência fiel.

Com a saída do fundador, a Netflix enfrenta uma encruzilhada estratégica. Na Alemanha, observadores notam que a empresa está cada vez mais atenta à publicidade como fonte de receita, enquanto em França se destaca que o gigante americano ainda digere o fim do sonho de adquirir a Warner. Em Lisboa e em São Paulo, a questão que se coloca é a mesma: conseguirá a Netflix, sob a liderança de Ted Sarandos e Greg Peters, manter a dianteira num mercado onde a concorrência se intensifica e a inflação comprime os orçamentos familiares? Hastings garantiu que sai para se dedicar à filantropia, à semelhança de Bill Gates, mas a sua ausência deixa um vazio simbólico numa companhia que ele moldou com pulso firme.

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