Ofensiva russa causa dezenas de mortos e sepulta trégua pascal na Ucrânia
Pelo menos 19 pessoas morreram em ataques com mísseis e drones horas após o fim de um cessar-fogo de 32 horas, violado milhares de vezes; Zelensky irá a Roma e Lavrov à China.

A Rússia desencadeou uma nova vaga de bombardeamentos em larga escala contra a Ucrânia, atingindo sobretudo Kiev, Dnipro e Odessa, com um balanço de pelo menos 19 mortos e mais de uma centena de feridos. Os ataques, que combinaram mísseis e drones, foram condenados pela União Europeia e pelo antigo presidente norte-americano Donald Trump, e surgiram imediatamente após o termo de uma trégua pascal de 32 horas, anunciada por Moscovo e aceite por Kiev, que as partes trocaram acusações de terem violado em larga escala. Na perspetiva de Lisboa, a escalada sublinha a dificuldade de qualquer pausa humanitária num conflito em que as posições se mantêm intransigentes.
A trégua, que deveria vigorar entre a tarde de sábado e a meia-noite de domingo, foi descrita pelo governo ucraniano como uma farsa: Kiev contabilizou 2.299 violações russas, incluindo um ataque com drone contra uma ambulância que feriu três paramédicos. Moscovo, por seu lado, denunciou incursões ucranianas com drones nas suas regiões, que teriam provocado cinco feridos. A troca de golpes prosseguiu mal expirou o cessar-fogo, com a força aérea ucraniana a reportar o lançamento de 98 drones russos, dos quais 87 foram abatidos, enquanto as defesas russas diziam ter neutralizado 33 aparelhos ucranianos. A dimensão das hostilidades confirma, segundo analistas em Brasília, a fragilidade de acordos pontuais e o risco de o conflito continuar a pressionar os mercados globais de cereais e energia, com efeitos diretos nos países lusófonos africanos dependentes de importações.
No plano diplomático, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, parte para Roma para se encontrar na quarta-feira com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, no Palazzo Chigi, um sinal de que Kiev procura consolidar o apoio europeu. Em sentido oposto, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, viajará para Pequim ainda esta semana, onde se reunirá com o seu homólogo chinês, Wang Yi, para coordenar posições sobre as relações bilaterais e as questões internacionais. A simultaneidade das deslocações expõe a consolidação de blocos antagónicos.
Paralelamente, o presidente da Confederação Suíça, Guy Parmelin, assinou em Washington um acordo com o Banco Mundial para a modernização da rede ferroviária ucraniana, uma iniciativa que visa aliviar os estrangulamentos logísticos do país e que, do ponto de vista de observadores portugueses, traduz um esforço europeu de reconstrução mesmo durante as hostilidades. A ajuda surge num momento em que a Ucrânia procura manter operacionais as suas rotas de exportação, cruciais para a estabilidade alimentar de várias nações africanas de língua portuguesa.
Com o fracasso da trégua pascal e a retoma dos ataques transfronteiriços, a perspetiva de negociações sérias permanece remota. A comunidade internacional, incluindo o Brasil e Portugal, que se têm mantido em canais de diálogo, enfrenta o desafio de equilibrar a condenação da agressão com a necessidade de evitar uma escalada ainda mais perigosa. A próxima semana, com as deslocações de Zelensky e Lavrov, poderá esclarecer até que ponto cada lado está disposto a explorar vias paralelas para uma solução, ou se, pelo contrário, o conflito continuará a alastrar-se.
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