Mulher de Sánchez formalmente acusada de corrupção após dois anos de investigação
Begoña Gómez é acusada de peculato, tráfico de influências e corrupção nos negócios. Decisão judicial coincide com visita oficial de Sánchez à China, onde Xi Jinping elogiou o 'lado certo da história'.

A justiça espanhola deu um passo decisivo ao formalizar a acusação contra Begoña Gómez, esposa do primeiro-ministro Pedro Sánchez, por quatro crimes: peculato, tráfico de influências, corrupção nos negócios e apropriação indevida. O auto do juiz Juan Carlos Peinado, que encerra dois anos de investigação, reconstitui um alegado esquema em que Gómez teria usado a notoriedade do cargo do marido para criar uma cátedra na Universidade Complutense de Madrid, angariar patrocínios empresariais e tentar apropriar-se de um software desenvolvido com recursos públicos. A decisão propõe que a arguida seja levada a julgamento perante um júri popular, o que abre um cenário de forte tensão política.
A notificação judicial chegou enquanto Sánchez e a mulher estavam em Pequim, numa visita oficial à China. O governo espanhol reagiu com "indignação", classificando o timing como propositado. A própria Gómez nega todas as acusações. Questionado numa conferência de imprensa ao lado do presidente chinês, o chefe do Executivo limitou-se a pedir que a justiça cumpra o seu papel: "Sempre disse o mesmo, o que peço à justiça é que faça justiça". A contenção verbal, porém, não escondeu a leitura generalizada em Madrid de que o caso está entrelaçado com a polarização política que marca a legislatura.
Na visita a Pequim, o ambiente foi de sintonia diplomática. Xi Jinping declarou que "tanto a China como a Espanha são países de princípios e estão dispostos a situar-se do lado certo da história", rejeitando o "regresso à lei da selva" — numa alusão indireta ao protecionismo de Donald Trump. O encontro serviu, assim, de contraponto narrativo, permitindo a Sánchez projetar uma imagem de estadista focado num mundo multilateral, enquanto a justiça espanhola o puxava para a crise doméstica. A coincidência de agendas acentuou a perceção de que o processo contra Gómez é instrumentalizado pelo bloco conservador para desgastar a coligação minoritária.
Para os leitores de língua portuguesa, o caso ecoa dinâmicas familiares. Em Lisboa, a cobertura acompanha de perto o desenrolar do processo, dado o paralelismo com investigações judiciais a titulares de cargos públicos em Portugal. No Brasil, onde escândalos de corrupção frequentemente se mesclam com a disputa política, observa-se com interesse a forma como Sánchez tentou blindar o governo sem amplificar o desgaste. O futuro imediato passa pela decisão dos tribunais sobre a abertura formal do julgamento; uma eventual ida de Begoña Gómez ao banquillo ameaça converter o desgaste judicial numa crise de governabilidade, com implicações que extravasam as fronteiras espanholas.
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