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terça-feira, 9 de junho de 2026 · Edição das 10:00 CET

Keiko Fujimori lidera presidenciais no Peru, mas caos logístico adia resultado e prolonga votação

Filha do ex-ditador reúne cerca de 16% e irá a uma quarta segunda volta, enquanto problemas graves obrigam à reabertura de urnas em Lima e nos EUA, atrasando a definição do adversário.

Política7 veículos3 idiomas3 min de leituraAtualizado 10:16

Keiko Fujimori, candidata de direita e filha do antigo presidente Alberto Fujimori, venceu a primeira volta das eleições presidenciais peruanas no domingo, de acordo com sondagens à boca das urnas, mas a fragmentação política e graves falhas logísticas mergulharam o processo num impasse invulgar. As projecções dos institutos Ipsos e Datum atribuem-lhe cerca de 16% dos votos, insuficiente para evitar uma segunda volta a 7 de Junho, numa disputa em que seis candidatos se agrupam estatisticamente empatados na luta pelo segundo lugar.

As eleições ficaram marcadas por atrasos e irregularidades que levaram o Jurado Nacional de Eleições (JNE) a prolongar a votação para segunda-feira em mais de 200 mesas de Lima e em duas circunscrições no estrangeiro – Orlando e Paterson, nos Estados Unidos. Inicialmente, previa-se que 63.300 eleitores pudessem votar um dia depois, número depois revisto em baixa para 52.000. A medida, inédita no país, afectou sobretudo a capital, onde o material eleitoral não chegou a tempo devido a problemas de transporte e organização. A própria autoridade eleitoral foi alvo de uma rusga policial, alimentando acusações não comprovadas de manipulação, num ambiente já tenso.

A fragmentação do espectro político peruano ficou evidente. Atrás de Keiko Fujimori, nomes como Rafael López Aliaga (direita radical), os esquerdistas Roberto Sánchez e Hernando Nieto, e o centrista Ricardo Belmont disputam a vaga restante com resultados entre 10% e 12,8%. Para observadores brasileiros, o cenário recorda a pulverização partidária que frequentemente caracteriza as eleições legislativas no Brasil, mas ali se soma a uma cultura de personalismo e a um desgaste profundo das instituições. Já em Portugal, analistas sublinham a persistência do fujimorismo, uma corrente política que sobreviveu ao colapso do regime autoritário e às três derrotas consecutivas da sua candidata em 2011, 2016 e 2021, por vezes por escassos milhares de votos.

A obrigatoriedade do voto para cidadãos entre 18 e 70 anos, embora comum na América Latina, adiciona uma dimensão de pressão sobre o sistema. Com 35 candidaturas presidenciais, a eleição tornou-se um referendo à corrupção e à instabilidade crónica que o Peru enfrenta, algo que ressoa no mundo lusófono, onde países como o Brasil e Moçambique também conhecem as dificuldades de governabilidade geradas por parlamentos fragmentados. A incerteza sobre o segundo nome na papeleta da segunda volta prolonga a indefinição, enquanto os mercados reagem com cautela à possibilidade de um confronto entre o continuísmo autoritário e uma esquerda heterogénea.

A expectativa centra-se agora na contagem oficial, que só deverá ser concluída após a votação complementar de segunda-feira. A eventual confirmação de Keiko Fujimori como primeira classificada abrirá caminho para o seu quarto duelo presidencial – um cenário que, para analistas internacionais, tanto pode representar a normalização do legado autoritário como uma nova oportunidade de rejeição democrática. Enquanto o Peru prolonga um ciclo de incerteza, a comunidade lusófona acompanha com interesse um processo que ilumina as fragilidades e as resiliências das democracias latino-americanas.

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