Cessar-fogo de Páscoa desaba e guerra de drones recrudesce na Ucrânia
Após trégua de 32 horas, Rússia e Ucrânia voltam a atacar com drones e mísseis. Kiev contabiliza milhares de violações e os diplomatas aceleram contactos em Roma e Pequim.

O frágil cessar-fogo proclamado para a Páscoa ortodoxa esvaiu-se na noite de domingo e as hostilidades retomaram de imediato, com dezenas de drones e mísseis a cruzar a fronteira em ambos os sentidos. Segundo Kiev, a Rússia lançou 98 engenhos não tripulados contra o território ucraniano, 87 dos quais foram abatidos pelas defesas aéreas, enquanto Moscovo reportou a interceção de 33 drones ucranianos sobre regiões russas. O saldo foi o corolário de um fim-de-semana em que as tréguas, anunciadas por Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, ruíram sob acusações cruzadas: o exército ucraniano denunciou 2.299 violações russas, entre elas um ataque com drone contra uma ambulância que feriu três paramédicos, ao passo que do lado russo se registaram cinco civis atingidos por fragmentos.
Este recrudescer da violência sucede a uma semana já marcada por um dos mais letais bombardeamentos dos últimos meses, que na noite de quarta-feira fez pelo menos 19 mortos e mais de cem feridos em Kiev, Dnipro e Odessa. A União Europeia e o então presidente norte-americano Donald Trump condenaram de imediato a ofensiva, ilustrando a convergência ocidental no repúdio a Moscovo. Em Washington, o suíço Guy Parmelin, presidente da Confederação, assinou um acordo com o Banco Mundial para modernizar a rede ferroviária ucraniana, gesto que sinaliza o alargamento da ajuda à reconstrução para além do campo militar.
No plano diplomático, os movimentos intensificam-se. Volodymyr Zelensky tem encontro marcado para quarta-feira, às 15h30, com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni no Palazzo Chigi, em Roma, onde se espera que reforce o apelo por sistemas de defesa aérea. Simultaneamente, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, inicia uma visita de dois dias a Pequim, durante a qual a China e a Rússia prometem coordenar posições sobre questões regionais e internacionais. Observadores em Lisboa e Brasília notam que a dupla ofensiva diplomática expõe a cristalização de blocos e o esvaziamento de pontes de diálogo.
Para as diplomacias do mundo lusófono, o fracasso do cessar-fogo pascal ecoa com melancolia. Brasil e Portugal, que historicamente advogam saídas negociadas, veem o episódio como mais um sinal de que a guerra entrou num ciclo de retaliação difícil de interromper. Enquanto isso, o terreno dita o ritmo: a cada trégua falhada, a hipótese de uma pausa duradoura torna-se mais distante, e a Ucrânia prepara-se para uma primavera que, em vez de flores, promete novos enxames de drones.
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