Kanye West adia concerto em Marselha após ameaça de veto das autoridades francesas
Rapper norte-americano cancela espetáculo indefinidamente, após Reino Unido lhe recusar visto; governos europeus divergem sobre fronteiras para o discurso de ódio.

O rapper norte-americano Kanye West, hoje conhecido como Ye, anunciou na rede social X o adiamento “até nova ordem” do concerto que daria em Marselha a 11 de junho, no estádio Vélodrome. A decisão, que o próprio classificou como “exclusivamente minha”, surge depois de o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, e o presidente da câmara de Marselha, Benoît Payan, terem explorado ativamente vias para impedir a sua entrada no país, invocando a promoção de ódio e do nazismo pelo artista.
O episódio prolonga uma sequência de bloqueios europeus. No Reino Unido, o visto de West fora recusado no início de maio, com o Home Office a considerar a sua presença “não conducente ao bem público”, o que levou ao cancelamento da sua atuação como cabeça de cartaz no festival Wireless. A justificação britânica e a intenção francesa assentam sobretudo num historial que inclui o lançamento de uma canção intitulada “Heil Hitler” e a venda de t-shirts com suásticas, ao lado de sucessivas declarações antissemitas. Em França, uma fonte próxima do ministro disse à AFP que Nuñez estava “altamente determinado” a banir o espetáculo, e o seu porta-voz confirmou ao Politico que o executivo permanecia “muito decidido” a usar todos os instrumentos legais.
Na sua mensagem pública, West procurou um tom de contrição: “Sei que é preciso tempo para compreender a sinceridade do meu empenho em corrigir os meus erros. Assumo toda a responsabilidade pelo que me cabe, mas não quero colocar os meus fãs no meio disto.” Contudo, a aparente viragem não foi suficiente para acalmar as capitais mais vigilantes. Em contraponto, os Países Baixos mantêm para já as datas de 6 e 8 de junho, sinalizando uma divergência dentro da União Europeia sobre até que ponto as autoridades administrativas devem filtrar a expressão artística com base em comportamentos passados.
Na perspetiva de Lisboa e de Brasília, o caso reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão e a responsabilização de figuras globais. Em Portugal, o alinhamento com os critérios de segurança pública seguidos em Paris e Londres é expectável, dados os mecanismos de cooperação Schengen. No Brasil, onde a legislação contra a apologia do nazismo e o discurso de ódio é particularmente robusta, uma eventual digressão de West encontraria resistência semelhante, embora o país não costume antecipar-se com vetos migratórios. Para os países africanos de língua oficial portuguesa, menos expostos a este tipo de controvérsia artística, a situação sublinha como a reputação internacional pode tornar-se um passaporte ou uma barreira.
Enquanto West fala em voltar “ao topo do globo”, a fragmentação europeia mostra que o regresso aos palcos não depende apenas de pedidos de desculpa. Da recusa britânica ao recuo tático em Marselha, desenha-se um novo capítulo em que os Estados usam a política de vistos como instrumento de sinalização moral, com consequências imprevisíveis para a circulação de artistas entre continentes.
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