Japão abandona pacifismo e libera exportação de armas, enquanto Ucrânia e Europa recalibram defesas
Tóquio encerra restrição histórica a armas letais; Kiev anuncia sistema antimíssil próprio e esquerda europeia defende autonomia energética e militar.

O Japão rompeu de forma definitiva com a doutrina pacifista do pós‑guerra ao aprovar, esta terça‑feira, novas diretrizes que permitem a exportação de armamento letal. O gabinete da primeira‑ministra Sanae Takaichi autorizou a venda de caças, mísseis e destroyers, ultrapassando os envios anteriores de equipamento não letal, como máscaras de gás e radares. A decisão elimina um dos últimos entraves à participação japonesa no mercado global de armas, num contexto de aceleração do rearmamento face aos desafios de segurança na região. Em Tóquio, Takaichi justificou a medida como forma de reforçar a defesa nacional e transformar a indústria de defesa em motor de crescimento. A mudança, contudo, foi recebida com críticas por Pequim e despertou interesse entre parceiros como a Austrália e nações do Sudeste Asiático.
A viragem ocorre enquanto a primeira‑ministra enfrenta resistência dentro do próprio Partido Liberal Democrata. Aos seis meses de mandato, após uma vitória eleitoral expressiva, Takaichi é acusada pela velha guarda de agir “como uma rainha” e de impor uma agenda que inclui a suspensão temporária do imposto sobre o consumo. O mal‑estar interno soma‑se a gestos simbólicos que reavivam tensões históricas, como a oferenda ao santuário Yasukuni, que cessou de ser visita, mas não de irritar vizinhos asiáticos. Na perspetiva de Brasília, o abandono do tabu exportador por uma potência industrial como o Japão pode reconfigurar o mercado de defesa, com eventuais repercussões para a indústria aeroespacial brasileira e os equilíbrios no Indo‑Pacífico.
Em paralelo, a Ucrânia anunciou a intenção de construir um sistema antimíssil balístico próprio “no prazo de um ano”, segundo o presidente Volodymyr Zelensky. A decisão surge num momento em que a escassez de mísseis Patriot se agravou, em parte devido ao redirecionamento de recursos para a crise com o Irão. Zelensky afirmou que dialoga com “vários países” para erguer também uma defesa antimíssil europeia. Analistas em Lisboa sublinham que a autonomia militar ucraniana ecoa a urgência de a Europa complementar as garantias de segurança tradicionais, num cenário de fadiga do apoio transatlântico.
A redefinição das dependências estratégicas também ecoa no debate político do sul da Europa. Em Itália, a líder progressista Elly Schlein defendeu o abandono das compras de gás russo e a aceleração das energias renováveis, citando o primeiro‑ministro espanhol Pedro Sánchez como modelo de um “ressurgimento progressista”. A articulação entre soberania energética e defesa começa a ganhar espaço nas agendas da esquerda mediterrânica, que vê na autonomia face a Moscovo um pilar de credibilidade securitária. Observadores em Luanda e Maputo notam que estas movimentações nas grandes potências podem acelerar a diversificação de fornecedores de armamento e tecnologia para os países africanos, num momento em que o equilíbrio global se fragmenta.
A convergência entre a abertura armamentista japonesa, a corrida ucraniana a uma defesa própria e a reorientação energética europeia desenha um mundo em que as antigas amarras ideológicas do pós‑guerra se dissolvem. A próxima década testará se a nova pujança industrial‑militar traz estabilidade ou alimenta uma espiral de competição estratégica, com reflexos inevitáveis para a segurança do Atlântico Sul e das rotas oceânicas que ligam a África lusófona ao Oriente.
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