Irão ultrapassa 1900 horas sem internet enquanto reconstroi capacidade de mísseis sob cessar-fogo
Bloqueio digital soma 81 dias e Teerão tenta impor controlo sobre cabos de fibra no Estreito de Ormuz; em simultâneo, recupera silos balísticos, noticia o New York Times.

O apagão generalizado da internet no Irão ultrapassou a marca de 1920 horas, entrando no 81.º dia de uma das mais longas e severas restrições digitais impostas pela República Islâmica. Dados do observatório NetBlocks, citados por várias fontes, indicam que a maioria da população continua excluída das redes internacionais, num quadro que já se prolonga desde o início dos confrontos militares e que se manteve mesmo após o anúncio do frágil cessar-fogo entre Washington e Teerão. A novidade, porém, é a ambição declarada do regime de expandir a sua «asfixia digital» para lá das fronteiras: o governo estaria a exigir controlo sobre os cabos submarinos de outros países que atravessam o Estreito de Ormuz, ao mesmo tempo que pressiona grandes empresas tecnológicas a cumprirem a sua legislação restritiva.
No plano interno, a responsabilidade pela decisão do corte prolongado permanece opaca. Mohammad Sarafraz, membro do Conselho Superior do Ciberespaço, revelou ao diário Shargh que aquele órgão não se reúne há quase um ano e que as decisões sobre o apagão e a criação de «cartões SIM brancos» para utilizadores autorizados foram tomadas à margem da sua esfera. A criação de um novo quartel-general de organização do ciberespaço pelo governo do presidente Pezeshkian, longe de resolver a disfuncionalidade, duplica estruturas sem clarificar quem detém a última palavra sobre o bloqueio – um impasse que, na prática, prolonga a exclusão digital da sociedade iraniana.
A par da ofensiva no campo informativo, o Irão aproveita a pausa nas hostilidades para recompor a sua capacidade militar. O New York Times relatou que as forças armadas iranianas estão a reabrir dezenas de locais de lançamento de mísseis balísticos danificados durante os ataques combinados de Israel e dos Estados Unidos. Um responsável militar norte-americano detalhou que grande parte desses mísseis se encontrava armazenada em túneis escavados em montanhas graníticas; as investidas visaram sobretudo as entradas, cujo colapso soterrou os arsenais. Agora, equipas de engenharia desimpedem os acessos, enquanto lançadores móveis são reposicionados e as táticas, ajustadas para uma eventual nova ronda de combates. A dimensão humana deste esforço ficou patente na morte de Hamid Khani, antigo membro do Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica, que participava como voluntário na neutralização de engenhos não detonados nos arredores de Teerão.
Para os países lusófonos, as duas frentes abertas por Teerão suscitam inquietações convergentes. Em Brasília, a aposta na militarização do Estreito de Ormuz, via de trânsito de cerca de um quinto do petróleo mundial, é observada com apreensão pelo seu potencial de disrupção dos mercados energéticos. Analistas em Lisboa sublinham que a tentativa de estender a censura digital a cabos internacionais representa um precedente perigoso para a governação da Internet, num ecossistema onde a liberdade de informação já enfrenta recuos significativos. Nas capitais africanas de língua oficial portuguesa, o episódio reforça a perceção de que regimes sob pressão tendem a fechar o espaço cívico enquanto procuram rearmar-se – um risco para a estabilidade do Golfo com repercussões muito para lá da região.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
The regime's internet blackout has now exceeded 1,200 hours, leaving the vast majority of Iranians cut off from global networks. Authorities are selectively granting access only to regime loyalists, while treating ordinary citizens as enemies. This digital siege, framed as a response to a US-Israeli war, reveals the regime's deep fear of its own people.
The internet blackout in Iran has now crossed 1,900 hours, entering its 81st day, while the regime seeks to expand its model of digital asphyxiation beyond its borders. Tehran is demanding control over undersea cables in the Strait of Hormuz and pressuring tech giants to comply with its rules. Meanwhile, the Supreme Cyberspace Council, which should decide on such cuts, has not met in nearly a year, exposing a chaotic and authoritarian decision-making process.
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