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Inflação industrial chinesa atinge pico de 45 meses com choque energético do Golfo

Preços ao produtor sobem 2,8% em abril, pressionados por petróleo e IA, enquanto conflito no Irão força Pequim a redesenhar abastecimento e beneficia exportações brasileiras de crude.

Economia5 veículos4 idiomas3 min de leituraAtualizado 07:00

A inflação ao produtor na China saltou em abril para o nível mais elevado em quase quatro anos, com o índice de preços à saída das fábricas a avançar 2,8% em termos homólogos, muito acima dos 1,6% que os analistas antecipavam. O índice de preços no consumidor (IPC) acelerou para 1,2%, num movimento que conjuga o choque energético provocado pela guerra no Golfo — com o encerramento do estreito de Ormuz, por onde transita 20% do petróleo mundial — e uma procura acrescida por equipamentos ligados à inteligência artificial. O aumento mensal de 1,7% no producer price index (PPI) foi o mais intenso desde o início de 2022, interrompendo de forma abrupta mais de 40 meses de quedas consecutivas.

A retoma dos preços é, na perspetiva de Pequim, um passo incipiente em direção à meta oficial de 2% de inflação, vista como antídoto para os riscos deflacionistas que há muito assombram a economia chinesa. Contudo, há um reverso doméstico preocupante: o encarecimento da energia e das matérias‑primas comprime as margens dos fabricantes, já fragilizados por uma procura interna débil. A gasolina, cujo preço disparou 19,3% face ao ano anterior, e os custos dos metais não ferrosos e do gás natural transferem pressão para um consumo das famílias que não dá sinais de robustez.

Avaliações a partir de Brasília sublinham que a crise no Golfo está a redesenhar as rotas comerciais da energia de forma favorável ao Brasil. As importações chinesas de petróleo brasileiro aumentaram 122% em volume no primeiro trimestre, à medida que Pequim procura fornecedores alternativos ao crude do Médio Oriente. Observadores em Lisboa notam, por seu turno, que a subida dos preços industriais chineses pode ter um efeito bumerangue nas economias ocidentais: depois de meses a exportar deflação, a China corre o risco de voltar a ser um vetor de inflação importada, complicando a tarefa dos bancos centrais europeus e norte‑americanos, ainda empenhados em controlar a subida dos preços.

Apesar da magnitude do salto, analistas ocidentais alertam que é improvável que os fatores de pressão nos custos desencadeiem, para já, uma resposta de política monetária mais flexível por parte de Pequim. A própria retoma do PPI reduz a urgência de estímulos adicionais. A dúvida que persiste, e que une os vários blocos geográficos, é se este ciclo inflacionista, alimentado por choques de oferta e pelos investimentos em inteligência artificial, conseguirá traduzir‑se num aquecimento sustentado da procura interna — ou se a economia chinesa continuará a enfrentar uma combinação de custos elevados e consumo anémico, com repercussões assimétricas que, do Atlântico Sul ao Pacífico, todos acompanham com cautela.

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