Ex-presidente pró-Rússia Radev conquista maioria absoluta na Bulgária e promete fim da corrupção
Rumen Radev, ex-presidente eurocético e crítico das sanções à Rússia, obteve maioria absoluta nas oitavas eleições parlamentares búlgaras em cinco anos, derrotando os conservadores e prometendo estabilidade.

O antigo presidente búlgaro Rumen Radev, um ex-piloto de caça tornado tribuno anticorrupção, venceu com estrondo as legislativas de domingo, conquistando uma maioria absoluta que põe fim a cinco anos de bloqueio político. Com cerca de 44% dos votos e uma projeção de pelo menos 129 lugares no Parlamento de 240 assentos, a coligação “Bulgária Progressista” poderá governar sem coligações, um desenlace que parecia improvável quando as sondagens à boca das urnas apontavam para um impasse. O veterano conservador Boyko Borissov, que dominou o país por uma década, sofreu o pior resultado de sempre, com o seu partido GERB a distanciar-se do líder em mais de trinta pontos percentuais.
A oitava ida às urnas em apenas cinco anos decorreu num país cansado da corrupção e da sucessão de executivos frágeis. Radev, que renunciara à presidência em janeiro para disputar o sufrágio, capitalizou uma eficaz campanha digital e a promessa de estabilidade, num contexto em que as manifestações de dezembro forçaram a queda do governo anterior. Apesar de a imprensa ocidental o retratar como alinhado a Moscovo e eurocético, o ex-presidente insiste numa via pragmática com a Rússia, sem questionar a integração europeia de Sófia. Na perspetiva de Brasília, a vitória de um dirigente que relativiza o consenso ocidental sobre a guerra na Ucrânia consolida a fragmentação dos blocos geopolíticos e pode ecoar em setores que defendem uma equidistância entre as grandes potências.
Em paralelo, o episódio húngaro sublinha a fratura que percorre o Leste da União Europeia. O primeiro-ministro Viktor Orbán anunciou que a Ucrânia estaria disposta a reativar o oleoduto Drujba já na segunda-feira, desde que Budapeste desbloqueasse um crédito de 90 mil milhões de euros a Kiev. Orbán condicionou o gesto com uma frase sintomática — “não há petróleo, não há dinheiro” —, reagindo à interrupção dos fluxos causada por danos atribuídos a ataques russos. A posição húngara e o triunfo de Radev revelam um eixo de pressão que, embora não necessariamente coordenado, testa os limites da solidariedade europeia face a Moscovo.
Observadores em Lisboa notam que o desfecho de Sófia e as manobras de Budapeste coincidem num momento de fadiga eleitoral e de dúvidas sobre a eficácia das sanções antirrussas, abrindo espaço a discursos que prometem “virar a página” da ortodoxia atlântica. Nos países africanos de língua portuguesa, a atenção europeia desviada para as divisões internas e para a segurança energética pode implicar um abrandamento do já escasso investimento na cooperação para o desenvolvimento. Radev afirma querer relacionar-se com a Rússia de forma “pragmática”, mas o seu mandato será um teste para a coesão do bloco e para a própria capacidade de Bruxelas digerir lideranças que não alinham automaticamente com a sua cartilha externa.
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