Estreito de Ormuz reabre, mas navios recuam e Trump ameaça romper trégua
Anúncio do Irão de reabertura total do estreito é contrariado por retirada de navios e por divergências profundas sobre o bloqueio, o urânio e a duração do cessar-fogo.

Um dia depois de Teerão anunciar que o Estreito de Ormuz estava “completamente aberto” ao tráfego comercial, os sinais no terreno e nas capitais envolvidas revelavam uma realidade bem mais ambígua. Dados de localização de navios mostravam que, embora algumas embarcações tenham começado a cruzar a via marítima, um grupo de cerca de vinte navios mercantes inverteu subitamente a rota e abandonou a tentativa de passagem. Na perspetiva de Washington, a abertura era apresentada como um triunfo diplomático; em Teerão, contudo, o porta-voz do parlamento acusava Donald Trump de “sete mentiras numa hora” e condicionava a circulação à obtenção de autorização iraniana e ao levantamento do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos.
O otimismo de Trump, que descreveu o acordo como praticamente concluído e garantiu que o urânio enriquecido iraniano seria transferido para os EUA, chocou de frente com os desmentidos categóricos da República Islâmica. Fontes iranianas classificaram a exigência de entrega do material nuclear como “inaplicável” e recusaram qualquer compromisso de suspensão indefinida do enriquecimento. O impasse sobre o bloqueio americano — que Teerão considera uma violação do cessar-fogo — agravou a tensão: enquanto a Casa Branca insistia em manter a interdição de acesso a portos iranianos até se alcançar um acordo definitivo, o Irão ameaçava encerrar de novo o estreito. Esta guerra de narrativas alimentava a volatilidade de um canal por onde transita um quinto do petróleo mundial.
Os mercados reagiram à promessa de desbloqueio com uma queda de 10% nos preços do crude, o que aliviou momentaneamente as economias importadoras, incluindo o Brasil e Portugal. Contudo, analistas europeus alertavam que a normalização do abastecimento demoraria semanas, e que a frágil trégua estava dependente da mediação paquistanesa e de uma nova ronda negocial prevista para o início da semana seguinte. Em Paris, uma coligação de países voluntários — com presença de Itália, França e Reino Unido — debatia o envio de uma missão naval para garantir a segurança da travessia, ao passo que Trump ridicularizava o oferecimento tardio da NATO, dizendo que já não precisava de ajuda.
A poucos dias do fim do cessar-fogo temporário, Trump advertiu que poderia não o renovar e que os bombardeamentos seriam retomados se não houvesse acordo até quarta-feira. A ameaça expunha a lógica de pressão máxima que, segundo observadores em Lisboa e noutros pontos do Atlântico, recordava a doutrina que o próprio presidente republicano aplicara no seu primeiro mandato. Do lado iraniano, a arma do “Juízo Final” que é o controlo do estreito revelou-se um trunfo dissuasor inesperadamente eficaz. A questão central permanecia: se a diplomacia conseguiria converter uma trégua instrumental numa paz minimamente estável, ou se o regresso ao conflito se tornaria inevitável.
Esta notícia apareceu em
26 veículos · 7 idiomas · janela de 24 horas