Esposa de Sánchez é acusada de corrupção durante viagem do premier à China
Juiz espanhol propõe levar Begoña Gómez a júri por quatro crimes, enquanto Pedro Sánchez ouvia de Xi Jinping que Espanha está “do lado certo da história”.

O juiz Juan Carlos Peinado encerrou a investigação sobre Begoña Gómez, esposa do primeiro-ministro espanhol, e propôs que seja julgada por peculato, tráfico de influência, corrupção nos negócios e apropriação indevida. A decisão foi notificada quando Pedro Sánchez se encontrava em visita oficial à China, gerando “indignação” no Palácio da Moncloa. Em Pequim, Sánchez reagiu com a frase já habitual: “O que peço à justiça é que faça justiça”, e reiterou a inocência da mulher.
O auto judicial reconstrói um esquema no qual Gómez teria usado a ascendência do marido para criar uma cátedra na Universidade Complutense de Madrid, obter patrocínios empresariais e tentar apropriar-se de um software de titularidade pública, com a colaboração de uma assessora da Moncloa. A investigação, iniciada em abril de 2024, foi marcada por avanços e recuos processuais, e as defesas alertam para risco de nulidade porque o mesmo despacho que encerra a instrução pede novas diligências.
A imprensa espanhola espelha a fratura política. O El Mundo sublinha que a esposa do governante se “aproveitou” de um círculo de elite e destaca a irritação oficial com o momento do auto; o El País realça a atitude contida de Sánchez e as fragilidades jurídicas da investigação. A coincidência com a viagem à China, onde Xi Jinping declarou que “China e Espanha estão dispostas a situar-se do lado correto da história”, foi lida pelo governo como tentativa de constrangimento. Veículos internacionais, como BBC e ABC, enquadram o caso como mais um foco de pressão sobre a frágil coligação minoritária socialista.
Na perspetiva de Lisboa e de Brasília, o episódio evoca escândalos em que cônjuges de chefes de governo foram arrastados para o banco dos réus. A suspeita de instrumentalização de recursos públicos para fins privados recorda a Lava Jato no Brasil e, em Portugal, processos contra familiares de antigos primeiros-ministros. A alegação de Sánchez de que a direita usa a justiça para desgastar o seu executivo ecoa debates lusófonos sobre os limites entre escrutínio judicial e guerra política.
Caberá agora aos tribunais decidir se Gómez será efetivamente julgada. Analistas ibéricos estimam que o processo, independentemente do desfecho, prolongará o desgaste da coligação de esquerda, já abalada por outros casos de corrupção envolvendo antigos aliados. A instrumentalização partidária da justiça em tempos de polarização aguda é um risco que Madrid partilha com outras capitais do mundo lusófono, de Brasília a Luanda.
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