Calor recorde no hemisfério norte reforça alerta de pico global até 2030
Relatório da OMM estima 86% de probabilidade de um ano entre 2026 e 2030 bater o recorde de temperatura; Europa, Ásia e Brasil já enfrentam extremos de calor, seca e tempestades.

As ondas de calor que varrem o hemisfério norte em maio acentuam a perceção de urgência climática. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) calcula que há 86% de probabilidade de um ano entre 2026 e 2030 superar o recorde absoluto de temperatura global fixado em 2024, quando o planeta atingiu 1,55°C acima dos níveis pré-industriais. As projeções, elaboradas com o serviço meteorológico britânico Met Office, admitem que a média anual possa escalar até 1,9°C, aproximando-se perigosamente dos limites do Acordo de Paris. A possibilidade de um novo El Niño, previsto para o final de 2026, reforça o cenário de aquecimento excecional.
Na Europa, o alívio é temporário e desigual. No Reino Unido, os termómetros recuaram dos 35,1°C registados em Kew Gardens para máximas de 31°C em Londres, e o risco de noites tropicais (acima de 20°C) diminuiu, mas milhares de habitantes em Kent enfrentam restrições de água devido à pressão sobre o abastecimento. A França viveu o seu maio mais quente de sempre, com 37,8°C, obrigando 14 departamentos a manter o alerta laranja; só no fim de semana se espera uma trégua. Na Alemanha, o «domo de calor» cedeu lugar a trovoadas e chuvas intensas, com os meteorologistas a anteciparem granizo e ventos fortes depois de dias de céu limpo e temperaturas acima dos 30°C. As autoridades de Roma e de outras três cidades italianas emitiram alertas vermelhos de saúde pública.
A Ásia também sente o impacto. Taipé bateu o recorde de maio desde 1896, com 38,3°C, impulsionada por uma alta pressão do Pacífico, céu limpo e ventos descendentes; a noite permaneceu anormalmente quente. O episódio espelha uma tendência que os climatologistas associam à maior frequência de bloqueios atmosféricos, que estacionam massas de ar tórrido sobre os continentes.
Do outro lado do Atlântico, o Brasil prepara-se para um fenómeno que os especialistas já apelidam de «El Niño Godzilla», previsto para a primavera e o verão de 2026/27. Uma nota técnica de cientistas brasileiros projeta seca severa no Norte e Nordeste, com risco de incêndios florestais e agravamento da saúde pública, enquanto o Sul enfrentaria enchentes catastróficas devido a chuvas volumosas e prolongadas. As ondas de calor intensificariam ambos os extremos.
Observadores em Lisboa sublinham que a sucessão de recordes regionais e as projeções da OMM confirmam a trajetória de aquecimento acelerado, mesmo que o arrefecimento temporário de maio na Europa possa dar uma falsa sensação de normalidade. A convergência de eventos extremos em latitudes tão distantes recorda que o clima não conhece fronteiras — e que o tempo para mitigar os piores cenários se esgota.
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