Autora de livro infantil sobre luto condenada a prisão perpétua por matar marido com fentanil
Kouri Richins, escritora de um livro para crianças enlutadas, foi sentenciada a prisão perpétua pelo homicídio do marido. Os filhos menores testemunharam terror e a defesa anunciou recurso.

Kouri Richins, a cidadã norte-americana que se notabilizou por publicar um livro infantil sobre o luto após a morte do marido, foi condenada esta quarta-feira a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. O juiz Richard Mrazik, do estado do Utah, considerou que a arguida, de 35 anos, é “demasiado perigosa para alguma vez ser libertada” [A1, A4]. A sentença, proferida no próprio dia em que Eric Richins faria 44 anos, encerra um caso que conjuga traição, ganância e a instrumentalização do sofrimento familiar.
Em março passado, um júri considerou Kouri culpada de homicídio qualificado, tentativa de homicídio, fraude com seguros e falsificação de documentos [A2, A4]. A investigação apurou que, em março de 2022, a mulher serviu ao marido um cocktail com uma dose de fentanil cinco vezes superior à letal, e que semanas antes, no Dia de São Valentim, já tinha colocado a mesma substância numa sanduíche [A4, A5]. O móbil financeiro era claro: herdar cerca de quatro milhões de dólares e resolver dívidas acumuladas, enquanto planeava recomeçar a vida com outro homem [A6].
Na audiência de sentença, declarações dos dois filhos menores, de 11 e 13 anos, lidas por assistentes sociais, revelaram o terror que a mãe lhes inspirava [A5, A3]. As crianças relataram ameaças de matar os seus animais de estimação e disseram sentir-se mais seguras se a mãe nunca saísse da prisão. A própria Kouri Richins, que publicou o livro “Are You With Me?” como suposto apoio a filhos enlutados, mantém a alegação de inocência e anunciou que irá recorrer da decisão [A3].
Apesar da ampla cobertura nos Estados Unidos e na Europa, o caso encontrou eco limitado nos órgãos de comunicação de língua portuguesa. Observadores em Brasília notam, porém, o paradoxo literário de uma autora que converteu o luto em mercadoria emocional para dissimular um crime. Em Lisboa, analistas sublinham que o recurso ao fentanil como arma de homicídio doméstico expõe, mais uma vez, a crise dos opiáceos que devasta comunidades norte-americanas, com reflexos que interpelam as políticas de saúde pública também na Europa. O desfecho do recurso e o eventual impacto na legislação de proteção de menores em contextos de violência familiar são questões que permanecem em aberto.
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