Surto de ébola na África Central ‘está nos superando’, alerta OMS, com 220 mortes suspeitas
Epidemia da estirpe Bundibugyo já atinge Uganda e RDCongo; ataques a hospitais e fuga de doentes dificultam a resposta, enquanto Angola e outros nove países estão em risco.

A Organização Mundial da Saúde lançou o mais grave alerta desde o início do atual surto de ébola na África Central: a epidemia está a propagar‑se mais depressa do que a capacidade de contenção. O diretor‑geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que “o surto nos está superando” e que o atraso na deteção dos primeiros casos obriga as equipas a “correr atrás do prejuízo”. Os números, atualizados na segunda‑feira, contabilizam 220 mortes suspeitas e mais de 900 casos sob investigação na República Democrática do Congo e no Uganda, onde o total de infetados confirmados subiu para sete, incluindo dois profissionais de saúde. A estirpe Bundibugyo, embora menos letal do que a variante Zaire que devastou a África Ocidental em 2014‑2016, não dispõe ainda de vacina, o que levou a OMS a declarar emergência de saúde pública de interesse internacional.
O trabalho das equipas no terreno é dificultado por uma vaga de ataques a unidades de isolamento. Só na província do Ituri, nordeste da RDCongo, registaram‑se três incidentes em oito dias. Na noite de domingo, um grupo de jovens invadiu o Hospital Geral de Mongbwalu para recuperar o corpo de um sacerdote morto com febre hemorrágica, forçando a evacuação de doentes e funcionários. Dias antes, o mesmo hospital já fora alvo de um incêndio que destruiu uma tenda de Médicos Sem Fronteiras e provocou a fuga de mais de duas dezenas de pacientes. A desconfiança em relação às autoridades sanitárias, somada à proibição dos rituais fúnebres tradicionais – que envolvem tocar e lavar os corpos, altamente contagiosos –, alimenta uma resistência que remete para os episódios de violência vividos durante epidemias anteriores.
A agência sanitária da União Africana identificou dez países vizinhos em risco de contágio, entre os quais Angola – a única nação lusófona da lista. Na perspetiva de Brasília, a imprensa brasileira destaca que os médicos no terreno já enfrentam escassez de materiais básicos e veem a resposta comprometida pela fuga de infetados. A vulnerabilidade angolana reacende o debate na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa sobre a necessidade de um mecanismo coordenado de preparação para emergências sanitárias, até porque a epidemia atual afeta desproporcionalmente as mulheres, cuidadoras por excelência e responsáveis pelos ritos de despedida. A própria OMS recorda que o ébola é por vezes chamado “a doença da compaixão”, por se propagar justamente nos gestos de proximidade aos doentes.
A pressa em travar o surto esbarra em fragilidades estruturais que vão além da insegurança no leste congolês. Observadores em Lisboa notam que a cooperação entre os países da CPLP poderia acelerar o envio de especialistas e a vigilância nas fronteiras angolanas, replicando aprendizagens da crise do Zika ou da covid‑19. O desafio imediato é duplo: desenvolver uma vacina para a estirpe Bundibugyo e reconstruir a confiança das comunidades, conciliando o imperativo de segurança sanitária com o respeito pelos costumes locais. Sem esse equilíbrio, cada novo funeral continuará a ser um potencial foco de transmissão.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
The Ebola outbreak in DRC and Uganda is spiraling out of control, with over 900 suspected cases and 220 deaths. WHO warns as attacks on health centers and traditional burial practices hamper the response. The situation is complicated by violence and population mobility.
WHO admits the Ebola outbreak, caused by the Bundibugyo strain, is outpacing response efforts. With over 900 suspected cases and 220 deaths, treatment centers are attacked and patients flee. Neighboring countries are on alert.
The WHO director warns that the Ebola outbreak in Congo is extremely serious and calls on neighboring countries to act immediately. Suspected cases exceed 900 and deaths 200. The situation is complex and requires a coordinated effort.
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