Ronda inaugural de conversações EUA-Irão fracassa após 21 horas em Islamabad
Vice-presidente Vance deixa o Paquistão sem acordo, acusando Teerão de recusar compromisso nuclear; Irão devolve a culpa e condiciona reabertura de Ormuz a uma solução equilibrada.

A mais ambiciosa tentativa de diálogo direto entre Washington e Teerão em mais de quatro décadas terminou sem entendimento na madrugada de domingo. Após 21 horas de negociações no Serena Hotel de Islamabad, o vice-presidente norte-americano, J. D. Vance, anunciou que o Irão "optou por não aceitar os nossos termos" e que a ausência de acordo representa "más notícias para o Irão, muito mais do que para os Estados Unidos" [A3][A19]. Do lado iraniano, fontes próximas da delegação atribuíram o impasse a "exigências excessivas" de Washington e sublinharam que a situação no Estreito de Ormuz não se alterará enquanto não houver um acordo razoável [A14][A12]. O encontro, o primeiro a este nível desde a Revolução Islâmica de 1979, foi mediado pelo Paquistão e abordou três dossiês centrais: o arsenal de urânio enriquecido, o bloqueio da via marítima e o descongelamento de fundos iranianos no exterior [A21][A9].
Na perspetiva de Washington, o obstáculo decisivo foi a recusa iraniana em assumir um "compromisso afirmativo" de não procurar a arma nuclear não apenas a curto prazo, mas de forma verificável e duradoura [A8][A19]. Vance descreveu a proposta apresentada como a "oferta final" americana e regressou a bordo do Air Force Two de mãos vazias [A22][A10]. Em contraste, Teerão insistiu que a diplomacia "nunca acaba" e que os contactos prosseguirão, embora sem pressa para uma nova ronda, enquanto acusava os EUA de não garantirem o levantamento de sanções e a libertação de ativos congelados [A25][A14]. O jornalismo europeu, da Alemanha a Itália e a Espanha, viu na longa maratona negocial um sinal de que a porta continua entreaberta, mas destacou a fragilidade do cessar-fogo que permitiu as conversações [A1][A6][A10].
A fratura no cessar-fogo, anunciado na terça-feira com mediação paquistanesa, foi ampliada pelos bombardeamentos israelitas no Líbano. Fontes americanas e internacionais apontam que a ofensiva sobre o Hezbollah, que matou centenas de pessoas, foi lida por Teerão como uma tentativa de sabotar as negociações por parte do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu [A15][A23]. Apesar de o presidente Donald Trump ter minimizado os ataques como uma "escaramuça separada", o texto do cessar-fogo previa uma suspensão imediata das hostilidades "em todo o lado, incluindo o Líbano" [A24]. A Austrália, pela voz da ministra Penny Wong, classificou o fracasso como "desapontante" e instou as partes a regressarem rapidamente à mesa [A7].
Enquanto a diplomacia estagnava, o Comando Central dos EUA confirmou que dois contratorpedeiros americanos transpuseram o Estreito de Ormuz para iniciar operações de remoção de minas, um movimento que Teerão classificou como provocação [A17][A10]. O Presidente Trump afirmou que as forças americanas estão a fazer um "favor ao mundo" ao limpar a via e que todos os navios iranianos lança-minas foram destruídos [A17]. Observadores em Lisboa e Brasília notam que o bloqueio prolongado do estreito tem impacto direto nos preços do crude, penalizando as economias importadoras de energia dos países lusófonos, num momento em que a incerteza geopolítica já pressiona as cadeias de abastecimento globais. Na África lusófona, produtores como Angola veem uma janela de valorização das suas exportações, mas temem os efeitos de uma escalada generalizada na região do Golfo.
O desfecho da primeira ronda deixa o conflito num ponto de inflexão perigoso. A combinação de um cessar-fogo que não se sustenta, operações militares em Ormuz e a ausência de um canal negocial sólido alimenta o risco de uma nova escalada. A comunidade internacional, de Pequim a Bruxelas, apela à retoma das conversações, mas a clivagem entre a exigência americana de desnuclearização irreversível e as contrapartidas financeiras e de segurança reclamadas pelo Irão continua a parecer intransponível [A11][A25]. A mediação paquistanesa sobrevive como ténue esperança, mas sem um gesto de parte a parte, a janela aberta por Vance pode fechar-se definitivamente.
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