Quebec empossa Christine Fréchette como primeira-ministra em transição contestada
Sucessora de François Legault toma posse com partido em queda nas sondagens e eleições a seis meses; encontro com o primeiro-ministro federal marca as primeiras horas do novo governo.

Christine Fréchette foi oficialmente empossada na quarta-feira como a 33.ª primeira-ministra do Quebec, tornando-se a segunda mulher a ocupar o cargo na história da província, depois de Pauline Marois (2012–2014). A cerimónia, realizada no átrio da Assembleia Nacional, perante a tenente-governadora Manon Jeannotte e cerca de 200 dignitários, encerra uma sucessão relâmpago no seio da Coligação Futuro do Quebec (CAQ), partido de centro-direita fundado por François Legault em 2011. Legault, de 68 anos, abandonou o cargo em janeiro, pressionado pela impopularidade e por sondagens que colocam a sua formação atrás dos liberais e de outras forças, numa manobra que analistas descrevem como uma tentativa de sobrevivência partidária, já que as eleições provinciais estão marcadas para outubro.
A escolha de Fréchette resultou de uma votação interna em que participaram apenas 9.183 militantes, num universo de mais de seis milhões de eleitores recenseados — um défice de legitimidade democrática que suscitou críticas na imprensa quebequense e que ecoa, noutros contextos lusófonos, as fragilidades dos processos sucessórios quando um líder se demite sem consultar diretamente as bases. Fréchette, de 55 anos, antiga ministra da Economia e da Imigração, derrotou Bernard Drainville na corrida à liderança e herdou um governo com escassa margem de manobra. Nas primeiras horas de mandato, já anunciou que nomeará um novo gabinete na próxima semana e que apresentará medidas de alívio do custo de vida.
A nova primeira-ministra procura afirmar-se na cena federal com uma visita-relâmpago a Otava, na sexta-feira, onde se encontrará com o primeiro-ministro Mark Carney para discutir desenvolvimento económico, infraestruturas, habitação e imigração. O gesto, sublinhado pela sua equipa como um sinal de nacionalismo pragmático, contrasta com a retórica de conflito que marcou a relação de Legault com o poder central. A nível local, Fréchette também ensaia uma mudança de estilo: visitou ainda antes da tomada de posse o presidente da câmara da cidade do Quebec, Bruno Marchand, prometendo uma abordagem de “Estado parceiro” e colocando a capital no topo das suas prioridades.
Na perspetiva de observadores em Lisboa e em Brasília, a passagem de testemunho num partido que ocupa o poder há sete anos e meio carrega traços de uma “geração espontânea” política, em que a renovação de rosto não garante a renovação de projeto. A própria Fréchette simboliza uma transição geracional — é a primeira representante da chamada geração X a governar o Quebec —, mas enfrenta o desafio de reverter a desvantagem eleitoral sem o carisma do fundador, que, emocionado, lhe entregou as chaves do gabinete com a profecia de que ali ficará “por muito tempo”. O teste das urnas, porém, definirá se a sucessão foi uma manobra de aggiornamento ou apenas o último ato de um partido moribundo.
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