Ondas de tiroteios escolares na Turquia chocam o país e deixam nove mortos
Segundo ataque em dois dias, cometido por um aluno de 14 anos, matou oito crianças e um professor, enquanto as autoridades detêm centenas por publicações online.

A Turquia foi abalada por dois tiroteios em escolas em menos de 48 horas, culminando na morte de nove pessoas — oito crianças e um professor — na cidade de Kahramanmaras, no sudeste do país. O ataque, ocorrido na quarta-feira, foi perpetrado por um estudante do oitavo ano que entrou em duas salas de aula da Escola Secundária Ayser Çalik e abriu fogo com cinco pistolas e sete carregadores, supostamente retirados do arsenal do pai, um ex-policia. O próprio atirador, de 13 ou 14 anos, morreu durante o incidente, seja por suicídio ou por disparos acidentais na confusão. As autoridades confirmaram que outros 13 a 20 alunos ficaram feridos, seis em estado grave, enquanto o pai do agressor foi detido para interrogatório.
O episódio sucedeu um primeiro ataque ocorrido na véspera, em Sanliurfa, também no sul do país, quando um ex-aluno de 16 anos disparou com uma espingarda de caça contra alunos de um liceu técnico, ferindo 16 pessoas antes de se suicidar. A raridade desse tipo de violência escolar na Turquia, onde massacres em colégios eram praticamente inéditos, amplificou o choque nacional. Centenas de familiares reuniram-se junto à mesquita central de Kahramanmaras para os funerais das vítimas, entre elas uma menina de 10 anos cujo tio descreveu à BBC a dor do pai carregando o caixão leve do filho, clamando “ó, meu filho mártir”.
A comoção pública foi seguida de uma reação enérgica das autoridades: 162 pessoas foram detidas por publicações online consideradas controversas sobre os ataques, incluindo a partilha de imagens dos incidentes e conteúdos que, segundo o ministro da Justiça, “incitavam o medo e elogiavam o crime”. A medida reflete um esforço para conter a disseminação do trauma, mas também levanta interrogações sobre a liberdade de expressão e o controlo da narrativa, num país onde as redes sociais já tinham sido alvo de restrições em momentos de crise.
Na perspetiva de Brasília, o episódio ecoa os recorrentes ataques a escolas no Brasil — como os de Suzano e Aracruz — e acende alertas sobre a necessidade de políticas integradas de saúde mental e controlo de armas. Observadores em Lisboa notam que a Turquia, tal como Portugal, dispõe de legislação restritiva sobre posse de armas, mas a facilidade com que o jovem acedeu ao arsenal do pai expõe falhas na cultura de segurança doméstica e no armazenamento responsável. Em países africanos de língua portuguesa, onde a violência armada se manifesta sobretudo em contextos de conflito ou criminalidade urbana, o impacto é menor, mas especialistas moçambicanos veem um sinal de alerta sobre o risco de importação de um modelo de violência escolar difundido pela cobertura mediática global.
Enquanto as investigações prosseguem para aferir a motivação do atirador de Kahramanmaras — que, segundo o ministro do Interior, não teve motivação terrorista —, a sociedade turca enfrenta um luto inédito. O país, habituado a outros tipos de violência política e atentados, descobre agora a vulnerabilidade dos seus estabelecimentos de ensino, o que deve reabrir o debate sobre segurança escolar e o acesso a armas de fogo num contexto de fácil circulação.
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