Larisa Dolina exige 176 milhões de rublos a burlões, enquanto Moscovo debate fragilidade da propriedade privada
Cantora pede indemnização após venda fraudulenta de apartamento; analistas ligam o caso à histórica precariedade do direito à habitação na Rússia, com ecos de uma burla semelhante na Suécia.

A cantora russa Larisa Dolina deu entrada, a 8 de junho, num novo processo no Tribunal de Lefortovo, em Moscovo, exigindo mais de 176 milhões de rublos (cerca de 8,8 milhões de reais) aos quatro condenados que a ludibriaram na venda do seu apartamento de cinco assoalhadas na capital. O valor, já reconhecido pelo tribunal de Balashikha em novembro de 2025, visa reparar o dano patrimonial provocado por uma operação que a própria artista descreveu como «o maior erro da minha vida» [A2][A3][A4][A5]. Enquanto o processo civil avança, o caso tornou-se um símbolo da fragilidade da propriedade privada na Rússia, tema analisado em profundidade por Maxim Trudoliubov no livro «Gente atrás da cerca», agora reeditado pela Meduza. Para o autor, «o apartamento na Rússia é o facto biográfico mais importante» — justamente porque a titularidade nunca foi verdadeiramente segura, oscilando entre confiscos revolucionários, privatizações caóticas e o arbítrio estatal [A1].
Na perspetiva de observadores em Lisboa e no Brasil, onde a casa própria é também pilar de estabilidade, o episódio reforça a perceção de que, em Moscovo, a lei nem sempre garante o direito de moradia. A compradora do imóvel, Polina Lurye, conseguiu em dezembro passado uma ordem de despejo da cantora, após meses de batalha judicial — o que demonstra que o terceiro de boa-fé pode prevalecer mesmo quando a venda é fruto de um crime [A2]. A complexidade do caso agravou-se com a revelação de que os burlões utilizaram criptomoedas para movimentar parte dos fundos, tornando o rastreio mais difícil [A4]. Para analistas em Brasília, a situação lembra os riscos de esquemas semelhantes no mercado imobiliário brasileiro, onde estelionatos digitais contra idosos se multiplicam.
Num registo distinto, mas revelador de como a confiança pessoal pode ser explorada, um tribunal sueco condenou, também em junho, uma mulher de 55 anos que telefonava a membros de igrejas pedindo dinheiro para transportes médicos ou medicamentos, obtendo pequenas quantias que depois usava para jogar. Embora o montante — cerca de 9 000 coroas (aproximadamente 4 500 reais) — seja ínfimo face ao rombo de Dolina, o mecanismo psicológico é o mesmo: a aparência de urgência e a exploração da boa-fé [A6]. A condenação na Suécia, com a arguida a aceitar indemnizar as vítimas, mostra que sistemas jurídicos consolidados tendem a responder com celeridade, ao passo que na Rússia a devolução do património à cantora ainda é incerta.
O caso Dolina, assim, transcende a crónica policial. Ele ilustra, como defende Trudoliubov, que a propriedade privada na Rússia nunca se emancipou totalmente da lógica de concessão estatal — e que, sem raízes culturais e jurídicas profundas, qualquer cidadão pode ver o seu «facto biográfico» desfeito por uma quadrilha habilidosa. Enquanto a cantora tenta reaver o que perdeu, a questão de fundo permanece: como pode um país normalizar a propriedade privada quando o direito a ela não é, ainda, uma certeza quotidiana? [A1][A2][A5]
Como a mesma história é contada em outros lugares.
A imprensa russa descreve o pedido de indenização da cantora Larisa Dolina como mero trâmite judicial: o tribunal Lefortovo, em Moscovo, registou a ação para recuperar mais de 176 milhões de rublos dos quatro condenados pela burla imobiliária. A cobertura é neutra e técnica, focada em números de processo, datas de protocolo e no reconhecimento judicial do direito à compensação.
Um diário sueco relata com indignação discreta a condenação de uma mulher na casa dos cinquenta anos que telefonava a membros de igrejas, pedia dinheiro para supostas despesas médicas e depois jogava os valores. A narrativa mescla os factos secos da sentença do tribunal de Norrköping com um tom de alerta sobre o abuso da confiança caritativa, retratando as vítimas como crentes ludibriados exatamente por sua fé.
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