Justiça dos EUA permite avanço do salão de baile de Trump enquanto tenta restringir acesso a arquivos presidenciais
Tribunal de recurso autoriza temporariamente a construção do polémico salão de baile da Casa Branca, ao mesmo tempo que o Departamento de Justiça procura anular uma regra que garante a divulgação de registos presidenciais.

Um tribunal federal de recurso em Washington decidiu, no sábado, permitir que a construção do novo salão de baile da Casa Branca, avaliado em 400 milhões de dólares, prossiga pelo menos até 17 de abril. A decisão do painel de três juízes suspende temporariamente uma ordem de um tribunal inferior de 31 de março, que bloqueava as obras por falta de aprovação do Congresso, e devolve o caso à juíza de primeira instância para que reconsidere as implicações de segurança nacional de uma paralisação total do projeto. O Presidente Donald Trump trava uma batalha judicial com a National Trust for Historic Preservation, que moveu uma ação em dezembro para impedir o plano neoclássico na ala leste do edifício, e a administração já admite recorrer ao Supremo Tribunal.
Paralelamente, um outro caso reacende o debate sobre transparência e limites do poder executivo. O Departamento de Justiça emitiu um parecer do Gabinete de Assessoria Jurídica que defende a anulação de uma regra da era Watergate, a qual tornava públicos os registos presidenciais após um certo período. A opinião, revelada pelo The Intercept, concede a Trump — e a todos os futuros presidentes — uma licença para reter documentos históricos, minando a responsabilização pública. Lauren Harper, especialista em sigilo governamental, sublinha que o acesso a essas discussões é crucial não só para a prestação de contas, mas também para que futuras administrações possam conduzir uma diplomacia racional.
Na perspetiva de Brasília, a ofensiva dupla contra a transparência e contra o controlo parlamentar do orçamento recorda os embates entre os poderes executivo e legislativo no Brasil, onde a divulgação de registos presidenciais e a fiscalização de obras públicas também geram tensões constitucionais. Observadores em Lisboa notam um contraste com as normas europeias de acesso a documentos administrativos, que em Portugal são garantidas por lei mesmo durante a vigência de mandatos presidenciais, reforçando o escrutínio democrático. Já analistas em Luanda e Maputo veem no endurecimento do sigilo presidencial americano um eco de práticas que dificultam a investigação de abusos de poder em regimes autoritários ou em democracias frágeis, alertando para o risco de um retrocesso normativo global.
A confluência destes processos sugere uma administração empenhada em expandir as prerrogativas do chefe de Estado, quer na gestão de projetos emblemáticos sem o aval do Congresso, quer no controlo sobre a memória institucional. A decisão provisória sobre o salão de baile dá espaço à Casa Branca para tentar uma intervenção do tribunal superior, enquanto o memorando do DOJ sobre os arquivos presidenciais pode desencadear litígios futuros sobre o direito à informação. A forma como o sistema judicial americano equilibrará estas tensões servirá como termómetro para as democracias que observam de perto a experiência norte-americana de pesos e contrapesos.
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