Infeções bacterianas batem recordes na Europa e América do Norte
Gonorreia e sífilis atingem máximos de uma década na UE, enquanto Montreal regista número inédito de casos de Lyme; especialistas apontam lacunas na prevenção e impacto do clima.

As infeções bacterianas estão a disparar em dois continentes, pressionando sistemas de saúde pública. Na Europa, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) revelou que, em 2024, a gonorreia atingiu 106.331 casos, um salto de 303% face a 2015. A sífilis mais do que duplicou no mesmo período, chegando a 45.577 diagnósticos — os valores mais altos em mais de dez anos. A clamídia manteve-se como a infeção sexualmente transmissível (IST) mais notificada, com 213.443 registos. “As infeções não tratadas podem provocar dor crónica, infertilidade e, no caso da sífilis, complicações cardíacas e neurológicas”, alertou Bruno Ciancio, responsável do ECDC, citado por vários meios. A agência aponta lacunas na testagem e na prevenção como motores desta escalada.
Na perspetiva de Estocolmo, a Suécia surge como uma exceção parcial. Embora os casos de sífilis tenham aumentado entre 2016 e 2021, a doença continua rara no país, e a trajetória recente sugere um desvio da tendência europeia. A organização sueca RFSU, no entanto, chama a atenção para os riscos do turismo sexual de verão: “É sempre importante ter um plano”, lembra, sublinhando que a atitude em relação ao sexo se torna frequentemente mais relaxada no estrangeiro, o que pode facilitar o contágio entre jovens viajantes.
Do outro lado do Atlântico, uma ameaça bacteriana diferente quebra recordes. Montreal registou 161 casos de doença de Lyme no último ano, o número mais elevado desde que a patologia se tornou de declaração obrigatória no Quebeque, em 2003. A região de Estrie continua a ser a mais afetada da província, com 385 de um total de 859 notificações nos primeiros onze meses de 2025. As temperaturas mais quentes prolongam a atividade das carraças portadoras da bactéria Borrelia, expandindo o risco para zonas antes consideradas seguras. Observadores em Lisboa e Brasília notam que o sobreaquecimento global também favorece a expansão de ixodídeos na Europa do Sul e no cone sul-americano, onde a vigilância permanece fragmentada.
Para o mundo lusófono, o duplo alerta é relevante. Enquanto países como Portugal reforçam a monitorização das IST, muitas nações africanas de língua oficial portuguesa carecem de dados fiáveis sobre gonorreia e sífilis, o que dificulta respostas atempadas. No Brasil, as taxas de sífilis adquirida e congénita voltaram a subir nos últimos anos, e especialistas em saúde coletiva temem que a crise climática possa trazer surtos de borreliose de Lyme-símile em áreas de mata atlântica e cerrado. A convergência entre défices de prevenção sexual e alterações ambientais exige, sustentam analistas, políticas integradas que aliem educação sanitária, acesso a diagnóstico e adaptação climática.
Perante os máximos históricos, o ECDC pede ação urgente. A experiência sueca demonstra que é possível moderar curvas de transmissão com vigilância e comunicação de risco, mas o verão europeu e as viagens internacionais continuarão a testar esses sistemas. Se as lições não forem aplicadas à escala global, as bactérias — transmitidas por contacto sexual ou por vetores — continuarão a encontrar terreno fértil para novos recordes.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
Cases of gonorrhea and syphilis in Europe have hit record highs in a decade, with gonorrhea up over 300%. Health authorities warn of complications like infertility and heart disease if untreated. In Sweden, RFSU urges young people to plan safe sex, especially when traveling.
Montreal recorded its highest number of Lyme disease cases in 2025, with 161 reported cases, the most since 2003. The regional public health directorate warns of tick bite risks even in urban areas and highlights the impact of climate change. The Estrie region remains the hardest hit with 385 cases.
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