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Haiti: mais de 30 mortos em correria na cidadela de Laferrière num evento de Páscoa

Uma aglomeração na fortaleza histórica de Milot, no norte do país, provocou asfixia e pânico no sábado. O primeiro-ministro anunciou investigação e o número de vítimas pode subir.

Sociedade9 veículos4 idiomas3 min de leituraAtualizado 10:35

Pelo menos trinta pessoas morreram no último sábado, num trágico tumulto na Cidadela Laferrière, no norte do Haiti, durante um evento turístico associado às celebrações da Páscoa. A fortaleza, classificada como Património Mundial pela Unesco e situada a cerca de 25 quilómetros de Cap-Haitien — a segunda cidade do país —, recebeu um número anormalmente elevado de visitantes, o que, em condições meteorológicas adversas, terá desencadeado uma correria fatal. O chefe da proteção civil do departamento do Norte, Jean Henri Petit, advertiu que o balanço pode aumentar, uma vez que as operações de resgate ainda não foram concluídas.

As primeiras informações recolhidas pela imprensa haitiana, nomeadamente pelo diário «Le Nouvelliste», apontam para uma combinação de superlotação e falta de oxigénio nas galerias da cidadela, agravada por chuvas fortes e vento. O presidente da câmara de Cap-Haitien, Patrick Almonor, corroborou a possibilidade de o saldo mortal se agravar. O primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, em comunicado, afirmou ter recebido com «profunda consternação» a notícia do sucedido, sublinhando que a tragédia ocorreu «durante um evento turístico em que participaram muitos jovens» e garantindo que todas as autoridades competentes foram mobilizadas para apoiar as famílias afetadas.

Na perspetiva de Brasília, o episódio reaviva memórias da longa presença brasileira no Haiti à frente da Missão das Nações Unidas para a Estabilização (Minustah), que durante treze anos procurou garantir a segurança num país assolado por crises sucessivas. Apesar de a missão ter terminado em 2017, analistas brasileiros sublinham que tragédias como a da Cidadela Laferrière evidenciam a persistente fragilidade das infraestruturas e da capacidade de gestão de multidões em locais de grande afluência turística, mesmo nos períodos festivos que deveriam simbolizar alguma normalidade.

Observadores em Lisboa e nos países africanos de língua portuguesa com laços históricos de cooperação com o Haiti — designadamente através da CPLP, da qual o país é observador associado — notam que o incidente põe em relevo os riscos de eventos culturais em espaços patrimoniais sem os adequados planos de contingência. A Cidadela Laferrière, construída no início do século XIX como defesa contra uma eventual invasão francesa, é um símbolo da independência haitiana, mas a sua localização remota e a complexidade arquitetónica transformam-na num desafio logístico quando a procura ultrapassa os limites do recinto.

O governo haitiano prometeu uma investigação célere, mas o sucedido coloca uma pressão adicional sobre uma administração já sobrecarregada pela instabilidade política e pela violência dos grupos armados que afetam sobretudo a capital, Porto Príncipe. Ainda que o norte do país seja relativamente mais calmo, a incapacidade de prevenir uma correria mortal num sítio emblemático questiona a possibilidade de recuperação de um turismo que já foi motor económico. A comunidade internacional, com a experiência acumulada de mais de uma década de missões de paz, deverá acompanhar com renovada atenção os próximos passos do executivo de transição, numa altura em que qualquer resquício de normalidade parece frágil diante de um incidente de tão elevado custo humano.

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