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terça-feira, 9 de junho de 2026 · Edição das 06:00 CET

Fracasso das conversações em Islamabad desencadeia bloqueio dos EUA ao estreito de Ormuz e amplia crise global

O colapso das negociações de paz entre Washington e Teerão levou ao bloqueio naval do estreito de Ormuz, à passagem de petroleiros chineses apesar das sanções e a uma vaga de reações mundiais que expõem o isolamento americano e o risco de escalada.

Energia e Clima30 veículos6 idiomas3 min de leituraAtualizado 09:55

O malogro das conversações diretas entre os Estados Unidos e o Irão, realizadas em Islamabad ao longo de 21 horas no fim de semana, precipitou uma decisão unilateral de Washington: a imposição de um bloqueio naval ao estreito de Ormuz que entrou em vigor na segunda-feira. O vice-presidente J.D. Vance, que liderou a delegação americana, afirmou que o Irão não aceitou as condições para pôr fim à guerra, nomeadamente a entrega do urânio enriquecido e uma moratória de vinte anos ao enriquecimento, em contraste com a contraproposta iraniana de apenas cinco anos. O presidente Donald Trump declarou então que a marinha dos EUA interceptaria navios com destino ou origem em portos iranianos, incluindo aqueles que pagaram taxas ilegais a Teerão para transitar a via navegável.

Apesar da presença de mais de quinze navios de guerra americanos na zona, a medida foi desafiada logo nas primeiras horas. Dados de tráfego marítimo confirmam que o petroleiro chinês Rich Starry, alvo de sanções dos EUA por comércio com o Irão, atravessou o estreito em direção ao golfo de Omã, um movimento que o ministro da Defesa chinês, almirante Dong Jun, enquadrou como o exercício de acordos comerciais e energéticos legítimos, avisando Washington para não interferir. Em resposta, Trump ameaçou «eliminar» imediatamente qualquer embarcação iraniana que se aproximasse da zona de bloqueio, classificando a marinha iraniana como «completamente destruída».

A comunidade internacional reagiu com alarme. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou apoiar o bloqueio e anunciou a convocação de quarenta nações para forçar a reabertura do estreito. A União Europeia, pela voz de Von der Leyen, alertou para os danos económicos e preparou um plano de emergência energética. A China, que viu as suas exportações abrandarem para 2,5% em março e as importações dispararem 27,8% devido ao choque nos preços energéticos, apresentou uma proposta de paz de quatro pontos assente no respeito pela soberania e no direito internacional. O Paquistão, mediador das conversações, pressionou por uma nova ronda antes do fim do cessar-fogo, previsto para a próxima semana, enquanto Trump afirmava que Teerão «ligou a pedir um acordo a todo o custo».

A divergência sobre o programa nuclear iraniano cristalizou o impasse. Fontes iranianas e americanas indicam que a administração Trump exigiu uma suspensão do enriquecimento de urânio por vinte anos, com restrições severas adicionais, ao passo que o Irão ofereceu um máximo de cinco anos, proposta que o presidente americano considerou insuficiente. Este diferendo técnico esconde uma assimetria estratégica: para analistas em Teerão e Pequim, o tempo joga a favor do Irão, pois quanto mais o estreito permanece fechado ou instável, maior a pressão sobre os aliados dos EUA e sobre a economia global, agora «a descansar sobre Ormuz», como sintetizou um analista militar.

Para as economias lusófonas, o impacto é indireto mas preocupante. O Brasil, grande importador de combustíveis, e Portugal, fortemente dependente da rota atlântica dos petroleiros, observam com inquietação a volatilidade do barril de Brent, que chegou a ultrapassar os 100 dólares antes de recuar ligeiramente com os sinais de novas conversações. A África lusófona, em particular Angola e Moçambique, produtores de hidrocarbonetos, pode beneficiar temporariamente da subida de preços, mas sofre com o encarecimento de importações e a perturbação das cadeias logísticas globais. Com a legalidade do bloqueio questionada por especialistas em direito marítimo internacional e o risco de confronto direto com a China a pairar, a próxima janela diplomática — que o Paquistão tenta abrir para quinta-feira — afigura-se como a última oportunidade para evitar uma guerra económica e militar de consequências imprevisíveis.

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