Fim da era Orbán: Hungria vira à direita democrática e abala populismos
A vitória de Péter Magyar encerra 16 anos de governo iliberal, reanima a UE e envia um sinal de alerta a partidos como Vox e Chega.

A Hungria pôs fim a 16 anos de governo de Viktor Orbán, o arquitecto da “democracia iliberal” cuja influência irradiou por movimentos soberanistas da Europa às Américas. Nas eleições de 12 de abril, a coligação Tisza, liderada por Péter Magyar, antigo aliado do regime, conquistou cerca de 54% dos votos contra 38% do Fidesz, assegurando uma maioria qualificada no parlamento [A10]. O próprio Orbán reconheceu a derrota em duas horas, gesto que, na perspetiva de Zurique, desmente as acusações de autocracia e sublinha a vitalidade democrática húngara [A11]. A coincidência simbólica com o choque entre Trump e o Papa, assinalada pela imprensa italiana, amplifica a perceção de que o ciclo soberanista está a encerrar-se [A1].
A vitória foi saudada com euforia em Bruxelas. Ursula von der Leyen comparou o dia à Revolução de 1956 e à queda do Muro de Berlim, vendo na derrota de Orbán o fim do principal obstáculo às sanções contra a Rússia e ao auxílio à Ucrânia [A9][A8]. Contudo, analistas italianos alertam que Magyar, apesar de prometer atender um telefonema de Putin para lhe pedir o fim da guerra, mantém a dependência húngara do petróleo e gás russos e condiciona a ajuda a Kiev a compensações europeias [A9][A7]. Ainda assim, a nova liderança abre uma janela para a ação climática e o realinhamento de Budapeste com os parceiros comunitários [A3].
Para a direita radical europeia, o golpe é profundo. Em Espanha, o jornal El Mundo descreve um “triplo golpe financeiro, estratégico e de futuro” para o Vox, que perde o seu padrinho ideológico e financeiro [A15][A5]. Em Itália, a dirigente do Fratelli d’Italia, Arianna Meloni, procurou distanciar-se ao sublinhar que “houve eleições livres e uma clara expressão da vontade popular” [A2]. Observadores em Roma veem aqui o esforço de Giorgia Meloni para se demarcar do soberanismo mais radical e consolidar um perfil conservador aceitável em Bruxelas. Em Lisboa e Madrid, o desaire de Orbán é lido como um travão à expansão do “iliberalismo” que inspirava partidos como o Chega e o Vox.
Também no mundo lusófono o simbolismo não é ignorado. Em Brasília, o fracasso do modelo orbánista, outrora admirado pelo governo Bolsonaro, retira um referencial a setores da direita que viam na Hungria um exemplo de resistência cultural e controlo dos media. Já de Lisboa, analistas sublinham que a queda de Orbán reforça a confiança nas instituições europeias e enfraquece a retórica de que a UE impõe um pensamento único — afinal, foi o voto popular que virou a página. Em Luanda e Maputo, governos tentados pelo autoritarismo eleitoral podem agora ponderar os riscos de um desgaste prolongado.
O caminho de Magyar, no entanto, está pejado de incertezas. Ele prometeu “limpar as cloacas do Estado”, desmantelar o sistema de corrupção e restaurar o Estado de direito [A14][A12]. Mas o aparelho judicial, mediático e económico montado em 16 anos não desaparecerá de um dia para o outro [A16]. A Hungria terá de provar que a alternância não é apenas uma pausa no populismo, mas o início de uma democracia mais robusta.
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