FIFA garante que Irão disputará o Mundial 2026 nos EUA mesmo com tensão bélica
Infantino afasta veto e confirma presença iraniana; pedido para mudar jogos para o México foi rejeitado. Casa Branca também conta com a equipa.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, dissipou esta semana as últimas dúvidas sobre a participação do Irão no Campeonato do Mundo de 2026, assegurando que a seleção persa viajará para os Estados Unidos «com toda a certeza». A declaração, feita durante o fórum económico «Invest in America» da CNBC, surge num momento em que o conflito armado entre Washington e Teerão lançava incerteza sobre a presença da equipa em solo norte-americano. A FIFA rejeitara já um pedido formal do governo iraniano para transferir os seus três jogos da fase de grupos para o México, conforme revelou a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum. A decisão mantém o Irão no Estádio SoFi, em Inglewood, na Califórnia, sublinhando a autonomia do desporto face às crises geopolíticas.
A posição de Infantino foi corroborada por um alto responsável da administração Trump, citado por órgãos alemães. Andrew Giuliani, diretor executivo da task force da Casa Branca para o Mundial, afirmou esperar a seleção iraniana apesar da ausência de um avanço diplomático mais amplo. A declaração, recolhida pelo Politico e repercutida na imprensa europeia, revela uma convergência entre a cúpula do futebol e o executivo norte-americano, ainda que a retórica oficial de ambos os lados evite promessas sobre as condições de segurança. Na perspetiva de analistas em Bruxelas, a insistência da FIFA em manter o calendário original pode ser lida como um teste à capacidade do torneio de neutralizar tensões, mas também como um risco calculado num momento em que sanções e operações militares continuam a marcar as relações bilaterais.
A imprensa árabe e mexicana oferece ângulos complementares. Em língua árabe, destaca-se o encontro entre Infantino e a seleção iraniana há duas semanas em Antália, na Turquia, onde o dirigente terá ficado «impressionado» com os jogadores. Já os diários mexicanos sublinham que o veto foi descartado de forma «tajante», lembrando que o México, coanfitrião do torneio, viu recusada a pretensão de acolher os jogos de uma equipa que simboliza uma das maiores rivalidades geopolíticas da atualidade. Esta recusa reforça, para a opinião pública latino-americana, a ideia de que a FIFA subordina as sedes a um controlo central que nem sempre dialoga com os anseios regionais.
Para o leitor lusófono, a decisão ecoa debates antigos sobre a politização do futebol. Em Lisboa, observadores recordam que Portugal defendeu historicamente a separação entre desporto e sanções internacionais, mas o precedente do Irão em 2026 pode reavivar discussões sobre a legitimidade de acolher regimes sob forte contestação. No Brasil, país que já recebeu o Mundial em contexto de crise política interna, a posição de Infantino é vista como coerente com a doutrina de que o futebol se deve sobrepor às divisões, ainda que analistas em Brasília alertem para os riscos de segurança num evento com a dimensão do Mundial, especialmente após a experiência de ataques cibernéticos e manifestações em edições anteriores.
O desenlace mais amplo permanece em aberto. Infantino admitiu esperar que «até lá a situação seja pacífica», mas a realidade do conflito pode impor escolhas de última hora, seja por questões logísticas ou pressões políticas internas nos EUA. O Mundial de 2026, o primeiro organizado por três países, transforma-se assim numa vitrina da capacidade do futebol para afirmar a sua independência — ou para expor os seus limites quando as armas falam mais alto do que a diplomacia da bola.
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